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A (in)decisão de (não) ser mãe

           Eventualmente, faço uns bicos de mãe para ajudar uma amiga em pequenas tarefas como levar um menino na escola, buscar o outro no inglês, ficar alerta caso os filhos dela precisem de algo nas ocasiões em que ela se ausenta da cidade por motivos profissionais. Gosto dos meninos e até me divirto com o título de “mãe-substituta” que inventamos para mim, nessas ocasiões.             Acontece que fui surpreendida por uma demanda um pouco maior do que um levar e buscar aqui ou acolá, na última noite.             Imaginem comigo: um dia intenso de trabalho, sob um sol escaldante. O cansaço era tanto que eu me deitei, mas não conseguia dormir. Nua em pelo, sem a obrigação de qualquer moralidade, levantei-me, peguei uma cerveja no congelador, troquei algumas palavras com uma amiga no Facebook, escolhi uma série de TV daquelas que não demandam...

Terceira Voz

O grito de horror, as lágrimas saltando aos olhos e o corpo contraído foram suas primeiras expressões do pânico que carregaria por toda sua infância e que ainda a fazem derramar lágrimas sentidas por sua ausência. Bastam de acusações a terceiros, fazê-la sofrer desta forma é intolerável. Não percebe que está perdendo o afeto de quem você magoa simplesmente por não enxergar que é amado? A quem quer punir? A si mesmo por se julgar não merecedor de tão magnífica companhia? A ela é que não pode ser. Alguém tão encantadora que precisa de sua proteção e carinho, é injusto. Ela não merece. Verbalizo as lágrimas e a tristeza que ela espalha por toda parte desde que entendeu que você não estaria ao seu lado hoje. Você  era o único presente que ela realmente esperava.  Ao contrário de trocar afetos, ela está aprendendo a acreditar que não merece celebrar a própria vida, mediante as expectativas frustradas.  Maltrate quem julgar que merece, mas aceite este amor inocent...

Herrar é umano

Muitas vezes pensamos que trilhamos o caminho certo Ou ao menos um caminho  bom . Dá-se um passo, dois, depois mais um Tudo parece possível Heis que no meio do caminho tinha uma pedra Exu Tranca-Rua sai à frente E agora, José? Sei não... O jeito é ler poesia, Escrever para cuspir o fogo Correr pra se sentir em movimento. E quando der de parar, soltar o grito: Cruz credo, que foi isso maquinista? Volta-se à realidade, Vê-se que está no mesmo lugar donde partiu Ou noutro, pior, melhor, nunca se sabe Mas tem-se que continuar em movimento Tem que se olhar no espelho de novo Encarar a si e o que de si não se tem mais Olhar pro outro e enxergar Tudo o que de seu fê-lo assim. Ah, dor infinita do erro! (Karina Klinke, primarvera 2012)

A geração da utopia

... sorriu para o céu, para as pessoas que nela não reparavam, metidas para dentro. (Pepetela. A geração da utopia )

Labirinto

"Eu não sou quem você pensa que sou E você não é quem eu penso que é" Será que sabemos quem somos, afinal? Ou procuramos no outro Aquilo que jamais seremos? Ah! dúvida atroz... Enquanto questionamos Deixamos o tempo remoer as marcas do passado. (Karina Klinke, inverno de 2012)

Doute suce

(Pour mes amis, qui d'identifier) Apagar da memória, Fazer de conta que nada existe, Que são volúpias da imaginação. Afinal, Ilusões são passageiras, Sonhos não se concretizam, Move-se à força do hábito de ser feliz, E se buscam prazeres nunca satisfeitos... Tudo em vão. Apesar dos pesares, Continua-se enxergando as marcas, Ouvindo vozes, Sentindo suores, Trocando conversas, Pensando, sonhando, desejando,  Esperando o próximo telefonema, A outra mensagem, Novos encontros. Noites e noites de sonhos e pesadelos, Dias que não passam, Tudo só tem um sentido: O perto-longe, o longe ao lado, Horas que são marcadas por relógios alheios E seu relógio emocional quer o tempo todo. Invadem o corpo, os pensamentos,  Reproduzem-se os gestos. Desajeitado medo da repetição do nada, Das perdas, dos vazios, das desilusões. Incógnitas que nunca serão decifradas, Só a experiência explica E o coração acalenta. Merde....

E agora, Maria?

O que chamamos "amor"  Nesta sociedade hipócrita e mal resolvida? O desejo? A posse? A vaidade? O medo da solidão? Motivos há muitos para se dizer "amo", Difícil é decifrar sua origem  E a intencionalidade de seu destino... Seja como for, atesto, "amo": Luz, sombra, caminhos, destinos, Olhares, cheiros, corpos, sonhos, Passagens, bloqueios, frios, suores, Debates, inspirações e tudo O que significa "vida" Em abundância. (Karina Klinke, outono de 2012)

Samba Canção

Foto: Juliana Freitas Tantos poemas que perdi, Tantos que ouvi, de graça pelo telefone - taí, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de mesuras (era uma estratégia), fiz comércio, avara, embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de  spots , talvez apenas teu carinho,  mas tantas, tantas fiz...  (Ana Cristina Cesar, A teus pés, Companhia das Letras)

O dito pelo não dito

Queria dizer muitas coisas... Mas meu pudor não deixa, O medo me retrai, A coragem é pouca, As ilusões me impedem. Deixo-me ouvir E confundo os dizeres em meus desejos. Procuro me mostrar sem palavras, Assim nunca sei como entendem... Também não saberia se dissesse, Porque cada qual ouve como pensa, Sente o quanto permite, Vê o que quer. Sigo imaginando como seria se soubessem E prossigo em silêncio Que tudo sente, tudo sonha, Tudo permite e sufoca... (Karina Klinke, outono 2012)

Partida

Sua ida me deixa saudades Mas sei que é egoísmo meu Porque este é o seu caminho Sua trajetória Seu percurso Como o meu: vim graças a você, Cresci e tive muitas conquistas porque sempre pude contar contigo Sou quem sou porque tinha você ao meu lado, Agora sou egoísta e quero que você fique... Por outro lado, crio coragem e digo: Vai meu amor, segue teu caminho E leve contigo a certeza de que minha existência é conquista tua, Antes mesmo de ser minha. Deixe que a luz acompanhe tua viagem Sei que tu também não vais me esquecer Nem me abandonar Estaremos eternamente juntos Porque os laços de amor são indestrutíveis. Segue em paz e leva minha gratidão contigo. (Karina Klinke, 34 anos depois de sua partida)

NÓS

Andar pela cidade,  A chuva, o filme, o almoço, a reunião,  O trânsito, o livro, a mensagem, a música...  Lembranças que me levam até você. Onde estás, com quem, para onde vais, Dormiu bem, acordou cedo, viajou? Perguntas que te buscam. Sorrisos, calafrios, calor na face, algumas lágrimas... Sensações que nos aproximam. (Karina Klinke, outono 2012)

Atesto

Hora desejo que meus olhos Revelem-te o que sinto, Outrora fujo. Temo reações As tuas e as minhas sobre as tuas. Parece-me impossível Esconder-me De ti, de mim em ti. Escolho fingir um não olhar Mas o teu me atrai E dissimulo um falsete, Brinco com as ilusões... (Karina Klinke, verão 2012)

Lugar nenhum

Não fui educado para ser mulher. E o que há de mulher em mim, a sociedade repudia... Se “ela” não flui de mim, falo da outra, daquela que idealizo... Falo do desconhecido, do imaginado. Não delas, mas para elas. (Será que) falo? Nessa viagem transgênero, nesse esforço descomunal, olho as mulheres à minha volta: mãe, irmã, namorada, amante, professora, avó, tia, prima, vizinha, cunhada, esposa, colega, sogra, concunhada, amiga... São tantas e tão diferentes  que me confundo com o “ser mulher”. Tantas versões que é impossível juntá-las sob um só nome, mesmo que todas recebam as expectativas de um (e esse é um só) “vir a ser”; esse que advém de outras tantas mulheres e de tantos outros homens: pai, irmão, namorado, amante, sogro,  avô, tio, primo, vizinho, cunhado, esposo,concunhado, amigo..  Cada uma e cada um impondo-lhe o que imaginam ser mulher... E elas “vão sendo”... Conscientemente ou não, fazem-se mulheres. Ainda que nem sempre libertas da imposição do ...

Entre humanos e livros

I "Aquilo de que você se livra, desfaz, te quer. E aquilo que não te quer, você guarda? SER HUMANO !!!" (A.J.R.M.) II "Isto e Aquilo. livro disto, Me livro daquilo humano livro quer quer livro humano disto e daquilo livro humano, livro, livro me livro do isto e fico com aquilo livro todos..." (A.J.R.M. e K.K.)

Em nome do pudor da sociedade (hipócrita)

É preciso conter esses excessos fraternos. Parar de expressar ternura diante os problemas alheios, não ter remorso por fazer o outro esperar, deixar de se emocionar com o sorriso amigo, não beijar em público quem conta suas historias, disfarçar o brilho nos olhos ante as conquistas de outrem, dissimular a preferência pela companhia dos demais... Assim a sociedade não te discriminará. (Karina Klinke, verão 2012)

Chuvas de verão

Teci minha rede de sonhos e fiz um rascunho de tudo o que era belo.  Foi então que descobri lindeza onde ninguém a via e dor quando todos sorriam.  Um paradoxo tão simples que me fez chorar, como tudo que é singelo faz sentir.  Idas e vindas, prazeres insólitos, costumes rompidos...  Como diz Marcelo Camelo, "a estrada vai além do que se vê..." (Karina Klinke - verão, 2012

2012

Chegou manso, molhado. Jogou sua cabeleira gotejante sobre nós Como que dizendo: envolvo-te, possuo-te. E foi nos tomando, cabelos, rosto, braços, tronco, pernas, pés, Lenta e suavemente. Depois, noite estrelada e a lua a nos mirar... Quero-te assim, 2012! Cada dia um chegar diferente. (Karina Klinke, verão, 2012)

Meu olhar

"Meu olhar, largo olhar de eterna claridade!” escreveu Charles Baudelaire. O que vê esse olhar? Silenciosos e amendoados olhos, Tímidos e às vezes debochados sorrisos, Bochechas que coram, Longos braços de suaves e intensos movimentos, Mãos dedilhantes, Pernas torneadas, marcadas pelas peraltices de outros tempos, Pés largos. Meu olhar gosta de vislumbrar tua silhueta Cada movimento, em um abrir e fechar de pálpebras, como um suspiro! Gestos teus que poucas vezes decifro, mas insisto, Busco no pulsar dos movimentos um sinal de tua estima, Algo que me diga o quanto e como me vês, Tudo em vão. Meu olhar não é teu intérprete, É sonhador, iludido, apaixonado. Ah, tempo perdido... diriam os experientes, Mas eu não me importo. Divirto meus olhos nos teus, Sossego-os ao som de tua voz, Afogo-os em teus abraços, quando posso. (Karina Klinke, verão 2011)

Mesa de Bar [1]

Dois amigos e uma mesa de bar: - Sei lá... Muitas vezes me sinto limitado... - Por quê? Por quem?! - olhar de desaprovação. - Sabes como é... a familia... os brother ... as pessoas falam, julgam... Olhar de estranhamento: - É mesmo? E tu? O que fazes? - Sei lá... acho que me fecho. Reprimo, assusto, tenho medo. - Medo é bom, evita a tragedia. - Então você concorda? Olhar assustado: - Eu? Com o quê? - Em se sentir assim... - Com medo? Sim. - Não é medo. É... sentir-se reprimido. - Mas quem te reprime? - Já disse, os outros, o que pensam, o que dizem, como julgam.,, - Esses outros não tomam atitude?! E ainda permites que te julguem? Quem tem atitude pode ter medo, retroceder, reagir conforme os acontecimentos. Outra atitude, movida pelo medo. É o movimento da vida. No mais... - Tá insinuando o quê? Olhar pro lado, braço levantado: - Garçom, mais uma. (Karina Klinke, primavera 2011)

Fora de cena

Sob o olhar, um gesto, nada se diz. Brinca com as mãos irriquietas, analisa o estrago das unhas. Mexe nos cabelos, enrola-os sobre os ombros. Cabeça ainda baixa, não diz palavra. Passam-se os minutos, o tempo se arrasta. De fato elas são desnecessarias, o silêncio fala por si e os gestos comungam com ele. Quando  são pronunciadas negam e confirmam o que já se sabia. Um observador atento enxergaria, mas todos fingem não ver. Antagonismos vãos. O que se passa? (alguém pergunta num rompante) Olhares se cruzam, finalmente. Abrem-se sorrisos, os olhos se voltam para o chão, palitos quebrados, pontas de cigarro, pés calçados, o quadrado embaixo da mesa. Começa uma falação, um contar sem fim de causos passados, volvem-se sorrisos, olhares, pensamentos divagam. Um toque suave pelas costas. Sai de cena. O relógio conta as horas, que agora voam, finda-se o tempo. O adeus é distante, quase frio, toques suaves demais para demonstrar qualquer emoção. Talvez seja proposital continuar fazendo de...

O caso de Antero - Paredes de Bordel

Antero em seu leito, No deleite da dor descoberta Revela Dianna após o feito O pranto (ou encanto) da morte certa:  - Acho que tenho AIDS... (Sussura Antero) Daqui, dessas paredes pra fora Em mente pretendo viver... O dia é muito grande pra isso conter. Livre do mundo lotado de gente Amarei a todas prostitutas Deusas desnudas indecentemente Amá-las-ei sexualmente. - Acho que tô surtando Antero! Temo tudo ditado nesse sonho Já nenhum carinho eu pondero Nada dessa vida já eu quero. Dias que não vejo o mundo... Dias de morte - entreguei-me ao seu gozo Dias de paz - Já não tem seu doloso dorso - Partindo de nós! (Diz Antero ao fundo). - Jaz é noite Mulher! Durma um pouco. Se for a morte traga-me um trago... Deixo-te em carne viva o meu gozo E levo à tumba a cicatriz do teu cigarro. - Mulher! - Quero ir a morte condenando-a Mordendo desejos, Bocejos na manhã, E os cães raivosos rodeando Até desistir de amar... E você os viciando Aprontando com seu sexo Distorcendo sua dor... ...

Dia d...

“Que saudade da professorinha             Que me ensinou o beabá Onde andará Mariazinha Meu primeiro amor, onde andará?” ( Ataulfo Alves) A “professorinha” de Ataulfo Alves certamente não recebeu essa adjetivação no diminutivo pelo mesmo motivo que recebem as mal remuneradas professoras que conhecemos. Aquela é lembrada como uma mulher que seduziu seu aluno por suas qualidades femininas e, muito provavelmente porque, por meio dela, o “beabá” fez todo o sentido. Por outro lado, as professoras, como outras profissionais do sexo feminino, carregam, há longa data, o peso do gênero, precisam ser bonitas, compreensivas e assexuadas, além de eficientes, inteligentes e altamente qualificadas. Os professores (homens), sem dúvida precisam ser portadores dos três últimos qualitativos, mas podem ser feios, grosseiros e pornográficos, porque, afinal, esse é o símbolo do macho competente. A professora feia é “baranga”, se apresenta maior rigor no trato co...