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Mostrando postagens de 2014

Grite

Quando tiver vontade de gritar, Grite. O vento levará tuas emoções pelos ares, Certamente saberão em quais ouvidos entrar. Sejam gritos de desespero ou horror, De angústia ou excitação, De lamento ou de paixão, Certamente saberão o que te comove, Saberão quem te move.  (Karina Klinke, primavera de 2014)

Quem ama?

Quem ama, é, minimamente, estranho. Abrir-se aos sentimentos é desumano. Humanos desejam receber, adquirir, possuir, convencer. Doar-se é animalesco. [Karina Klinke – primavera de 2014 - Créditos na Foto: Rodrigo Greppe]

Sensibilidade

Onde se esconde a sensibilidade? Ocultada na racionalidade da concorrência? Travada no medo de si e do outro ? Aturdida pelo tempo acelerado? Doente com a falta de receptividade? Não se pode mostrar, isso está posto, Ser sensível é sinal de fragilidade, Expor-se, Perder tempo "produtivo", E o pior, ser rejeitado. Assim, diz-se de tudo, Menos o que sente, Finge-se forte, quando quer se entregar, Tudo é pra hoje, Não deixa acontecer. Oxalá nos libertássemos de toda essa farça, E buscassemos a plenitude em si Para saber compartilhar com o outro Sem a angústia de se ferir, Apenas deixar fluir. (Karina Klinke, primavera 2014)

Do óbvio

Desenho de Afonso Menezes (2011) Sentados ali, um ao lado do outro Nem ao menos se roçavam Não fazia diferença... Envolviam-se em odores, olhares, respirações Sorrisos, pulsações, emoções. Nada disseram um ao outro sobre como se sentiam Cada qual tinha suas suspeitas E já era óbvio demais. (Karina Klinke, primavera/2014) Mais de Afonso Menezes em:  http://paperback-sketcher.blogspot.com.br/

Fatos

Caricatura de Thiago Bertoni, por Thiago Bertoni Os fatos são poucos, nada mais raro do que um fato que não seja raro Empregarei alguma astúcia e imaginação pra pavimentar o caminho que nos leva de um ao outro Mentirei, sobretudo, em nome de conectar uma verdade a outra verdade Tarefa que minha memória não pode mais realizar sem alguma desonestidade pontual Os fatos são poucos e há entre os fatos tamanhas e tantas lacunas que não haveria nenhuma história pra contar se eu contasse apenas o que de fato aconteceu. (Thiago Bertoni – primavera/2014 - Ver mais em:  http://bertoniblog.blogspot.com.br/ )

O Brasil é o país do futuro

Meu pai é militar. Estudei em três escolas militares. Escolas Públicas, diga-se. E tenho muitos amigos e amigas, da infância e da adolescência, que carrego comigo, no meu coração, na minha identidade. A gente assistiu o Cel. Andrade Neves dar a ordem para retirarem o nome do Lamarca da placa de formatura no Colégio Militar de Porto Alegre. Nunca nos explicaram a razão objetiva daquilo.  Havia o Cel. Brandão, que fora colega de turma do Lamarca, que nos corredores dizia: nunca conheci um homem mais inteligente e com maiores habilidades no trato com as pessoas, com a tropa e com as armas. Era um atleta completo. Toda vez que tentavam reprovar alguém por milésimos, toda a vez que tentavam expulsar alguém, era o Cel. Brandão que defendia os alunos. Sim, aquele Coronel que elogiava o Lamarca.  Nós tivemos aulas, com o Gal. Matias, que levava um pedaço do tijolo do Muro de Berlim para dentro da sala de aula, e explicava: de um lado, Ferrari’s e vinhos caros, do outro, vin...

Existe a Outra

Foto: Karina Klinke Garota, você mudou...  Eu mudei também.  Estava acostuma com você precisando de mim pra tudo e tudo o que eu lhe dava era motivo de sorriso, beijinhos, um obrigada arrematado com sincero "eu te amo".  Eu achava que sabia de você,  que poderia lhe dar o mundo!  Claro que cometi enganos, mas nenhuma de nós entendia isso. Nossa mudança foi gradual, conflituosa, e gerou dor em nós duas. Agora você aponta meus defeitos e eu me revolto, aponto os seus também e acabamos discutindo. Nenhuma quer abrir mão de suas razões. Afinal, somos outras uma com a outra. E queremos impor nosso novo Eu. Amor? Não duvido que exista, mas a necessidade de liberdade fala mais alto. Parece que queremos apagar a imagem da outra em nós.  Queremos ser únicas. Difícil compartilhar espaços,  amigos, familiares, sentimentos. Temos medo de ser engolidas uma pela outra. Mesmo assim sinto saudades de nós duas juntas... acho que ainda quero lhe dar o mundo, mas você ...

A quem interessar possa

A hora é sempre a sua, nunca a minha, A forma é a que você quer, não eu, Lugares são você quem escolhe, os meus são inadequados. Angústias só você tem, eu não,  Seus desejos sempre sobrepõem aos meus, Seus medos fazem sentido, os meus são paranoias,  Devo respeitar suas ideias, as minhas são insanas.   Você diz que não vive sem mim, Mas é só pra alimentar seu alter ego. Quer saber? Tô ocupada agora. (Karina Klinke - inverno 2014)

Ranking

Pablo Picasso - Guernica, 1937 Desafio do século: Ranking do feto: desenvolvimento biológico. Ranking do nascituro: perfeição fisiológica. Ranking da primeira infância: habilidade motora. Ranking da segunda infância: capacidade cognitiva. Ranking da puberdade: formosura. Ranking da adolescência: ENEM ou trabalho. Ranking da juventude: vigor. Ranking da meia idade: sucesso. Ranking da maturidade: riqueza. Ranking da terceira idade: sanidade. Ranking da velhice: resignação. Ranking do moribundo: não incomodar. Mais de um desses pode ser esperado ao mesmo tempo em qualquer fase da existência. Cuidado: se ceder a quaisquer exigências pode estar mais desequilibrado do que se não cumprir as expectativas listadas. Sugestão: liberte-se. (Karina Klinke, inverno 2014)

Paisagem Revisitada

Ah, o tempo... uma incógnita.  Passa ou se renova? O ontem de hoje,  eram trevas,  altera-se em regozijo.  A lua,  há tempos minguante,  fica cheia. O bar, a música, o perfume, antes lembranças, agora são prazeres. As lágrimas vertidas viram sorrisos regados ao doce som das palavras. O relógio, ainda mais lento, aguarda o próximo encontro.   (Karina Klinke, outono 2014)

Presente de Dia das Mães

Dirigindo o carro pela cidade, o filho de 10 anos, sentado ao lado, sai com essa, em pleno segundo domingo de maio: - Mãe, eu tava pensando... se não fosse você na minha vida eu seria um bosta. - Oi?! - É... tudo que eu sou de bom é por causa de você. Silêncio.  (Karina Klinke, outono 2014)

Prisões

Foto: Karina Klinke Das prisões construídas pela e para a humanidade  a pior é aquela que aprisiona o ser por dentro,  reduz o olhar,  tolhe sentimentos, impede experiências,  confunde o "eu" e o "outro",  ensimesma e sufoca. (Karina Klinke, verão 2014)

Constatação literária

Recentemente reorganizei minha estante de livros que, desde o último estudo, há cinco anos, andava praticamente abandonada para interesses particulares. Hoje consegui, dadas as novas circunstâncias, consultar meus velhos livros, que antes se perdiam em desorganização e poeira. Abro o primeiro, Ok; o segundo, Ok também; o terceiro, Ok. Mas no quarto livro faço uma viagem no tempo...  Encontro riscos que não reconheço como meus e, finalmente, anotações, escritas que me remetem à observação: alguém mais visitou este livro e de alguma forma, mais ou menos próxima, esta pessoa fez parte de minha vida.  Dada a liberdade de tê-lo rabiscado, concluo que se sentia íntimo o bastante. Isto eu não sabia antes. Agora que reconheço a letra (obviamente porque houve intimidade para tanto), constato: foi recíproco.  Ah, os livros, fonte ilimitada de saber!  (Karina Klinke, verão 2014)

Lira dos Quarenta

Vocês foram chegando assim, devagarinho, meio tímidos, mas chegaram. Tomaram conta de mim, do meu corpo, do meu ser, até me dominarem por completo. Deixaram-me mais bonito, mais atrativo, mais homem. Bem marotos, derramaram neve em meus cabelos, marcaram com um garfo o contorno dos meus olhos e ainda não entendi o porquê, afundaram minhas órbitas oculares. Será por isso que não vejo mais nada bem? E que confusão é essa que aprontaram? De perto preciso tirar os óculos e de longe, somente vejo com eles. O problema é que nem tudo é somente perto ou longe. As coisas ora estão perto, ora longe. Das dúvidas que restam nesta idade a que mais me intriga e não ter certeza se o amor realmente existe. Eu gostaria muito que existisse amor eterno, que fosse possível passar a vida sempre só com uma pessoa, um amor. Não me sinto confortável em dizer que o amor não existe, assim como não tenho plena convicção de que ele exista. Fico entre a dúvida e a esperança que ele se revele para mim. Não s...

A falta

   (Vincent Van Gogh - "A noite estrelada" - 1889)                            Diante das saudades que não cediam Fui te procurar em meus sonhos E para surpresa minha, onde estavas? Em lugar nenhum. Percebi então que não és mais um devaneio, Um sujeito platônico. Estás em meu cotidiano, Em lugares concretos, Num envolvimento constante de dramas e sorrisos. És uma pessoa que participa de minha vida Não mais uma fantasia, Agora um humano. Tuas lágrimas e alegrias me contagiam Enternecem-me, aliviam-me, assustam-me. Então penso: este é tu mesmo ou continuo sendo eu, Que te vejo, desejo e oculto nos recantos de minha ilusão? Sabe-se lá o que os sentimentos provocam, Não há controle, Não quero controle, Prefiro o devaneio. Legítimo ou arrebatamento, Existes assim para mim. Às vezes desejo saber como sou pra ti, Iss...