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Lira dos Quarenta




Vocês foram chegando assim, devagarinho, meio tímidos, mas chegaram. Tomaram conta de mim, do meu corpo, do meu ser, até me dominarem por completo. Deixaram-me mais bonito, mais atrativo, mais homem. Bem marotos, derramaram neve em meus cabelos, marcaram com um garfo o contorno dos meus olhos e ainda não entendi o porquê, afundaram minhas órbitas oculares. Será por isso que não vejo mais nada bem? E que confusão é essa que aprontaram? De perto preciso tirar os óculos e de longe, somente vejo com eles. O problema é que nem tudo é somente perto ou longe. As coisas ora estão perto, ora longe. Das dúvidas que restam nesta idade a que mais me intriga e não ter certeza se o amor realmente existe. Eu gostaria muito que existisse amor eterno, que fosse possível passar a vida sempre só com uma pessoa, um amor. Não me sinto confortável em dizer que o amor não existe, assim como não tenho plena convicção de que ele exista. Fico entre a dúvida e a esperança que ele se revele para mim. Não sei quanto tempo me resta aqui no mundo dos vivos. Não sei quantos anos, horas ou minutos tenho de fôlego. Pode ser que me acabe antes que termine este poema ou mesmo que desapareça tal qual a luz que encontra a escuridão da caverna. Pode ser que não chegue aos cinquenta. De certo, só posso dizer que chequei até aqui. O agora, que é de concreto o que tenho, é efêmero, dura milésimos de segundo. O ontem já era e o amanhã não tenho certeza que será. Portanto o que me resta são essas linhas que escrevo e nelas escrevo o mundo, nelas coloco minhas vontades, meus desejos. Nelas expresso minhas vontades quaternárias de cada lado meu, que se compõe de 10 unidades, de 10 tempos místicos que formam minha estrutura. Este sou eu, estátua em construção, que no final se desintegrará, ou melhor, será sublime, passará a outro plano, não mais este, no qual se chora, sente-se dor, desespero, amargura, rancores e outros sentimentos que espero inexistirão, ficarão no passado, pois de mim, quando fizer a viagem, essa a qual muitos temem, ficarão só as vestes que usei aqui onde estamos. Serei livre, assim como o vento, feliz tal qual uma estrela, que só brilha, e brilha e brilha.

(RICARDO NOGUEIRA, verão 2014)

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