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Mostrando postagens de 2016

Nossas Mortes

Foto: Karina Klinke Nestas noites quentes de primavera, quando estamos você e eu, gasto horas e horas olhando seu olhar que olha o meu. Eu, em vestes brancas, leves, esvoaçantes, olho para seus desejos que às vezes me assustam. Quando você sorri e posso ver seus dentes cerrados sinto um pouco de medo, temo pelo desejo que sentes por mim, pois sou frágil, e em você não há fragilidade, há um desejo imenso tal qual tenho quando me dedico a mover as engrenagens do mundo, tal qual sinto vivendo bravamente. Você me deseja de uma maneira poderosa, um frenesi, e tímida, minha fragilidade, teme completamente ser devorada. Temo por desintegrar-me em teus braços. Temo não conseguir controlar a intensidade de você em mim, esse seu desejo de que eu entre em você. E eu que fico passando a mão por seus braços, por seu ventre, por seu rosto. Você que no íntimo me olha e me diz que me esperou tanto! Que por vezes imaginou que não nos encontraríamos nesta existência. Isso provoca-me um choro emoc...

(Des)Encontros [1]

Conheceram-se em uma festa Ela estava acompanhada Ele, não Entreolharam-se. Em uma mesa de bar Reconheceram-se Olhares vivos e mãos suadas Ele tinha alguém Ela não. Passaram a se encontrar Casualmente ou agendado  Às vezes ela ancorada em alguém Ou ele em outro alguém. Numa dessas ela ilusionou Hoje não terá ninguém Mas tinha De raiva do descompasso  Decidiu ficar com alguém. Ele revidou  Ela também. Aquele primeiro olhar Entretanto, prevaleceu Até ela entender Que com ou sem alguém Ele era quem trazia A doçura e a angústia Para ela sentir.  (Karina Klinke, verão 2016)

Sentio

Foto: Karina Klinke Castrada nos atos hercúleos Esperados de corpos masculinos e femininos A sensibilidade está latente  Fazendo sofrer quem a carrega. Deixa-la fluir não é fácil Em meio às demandas sociais Mas é saudável à sobrevivência Dos seres que a portam. Quando negada Torna-se dor ou mágoa E quando criticada Torna-se auto-destruição. Tudo depende do valor que é dado À opinião alheia De querer ou não receber aprovação  Ao menos de um ser amado. Mas segundo a lógica do chavão "Quem ama, liberta" Aprovar não faz sentido Se não liberta, não ama. O sensível liberto quer voltar, Estar junto, Compartilhar a liberdade, Compromissado com as emoções. Mas como são possessivas as pessoas Inseguras Carentes De afeto e entendimento... Nada mais delicado do que Respeitar as sensibilidades Entregar-se a elas Sem cobranças. Ah, essa tal sensibilidade Desejada e incompreendida Por si, Pelo outro. Deixe estar. O ser sensível de fato É...

Em tempos de poder masculino, branco e abastado

( Guernica - de Pablo Picasso - exposto pela primeira vez em 1937) Para meu filho. Tornar-se homem na sociedade em que vivemos é complexo. Exige ser forte, sedutor, inteligente, charmoso, abastado, capaz de enfrentar quaisquer obstáculos, galanteador, conquistador e segue uma longa lista de expectativas sociais. Educados há longa data para ser tudo isso, esses “pobres moços”, confundem-se e se perdem na aventura do “tornar-se”. Boa parte deles se sente aquém das expectativas. Não sabem o que fazer com seus corpos sarados, magros, gordos... pois aprenderam somente a ser viris. Se negros, sentem-se na obrigação de ser objetos sexuais, se não, na obrigação de ser algo mais que os negros. Se não se sentem viris – o que é fácil, pois virilidade exige uma superpotência desumana – consideram-se menos homens que outros homens, já que têm dúvidas sobre quais partes de seu corpo, seu intelecto, seu ego (e do alheio), pode ser explorada além do falo e de uma vagina. Nesta condi...

Desistência

                                                                                                   Foto: Karina Klinke Aviso que desisti! Porque anunciar faz parte do processo de libertação. Desisti de me fazer de vítima Esperando o que não existe, De me debruçar sobre o intransponível, De transpor obstáculos que eu mesma criei, De sair do lugar que desejo ficar, De passar roupas, De fazer cara boa quando quero chorar, De permanecer com quem magoa, De agradar pessoas que não me entendem, De acreditar na derrota, De ouvir que sou muita areia pro seu caminhãozinho, De me esforçar pra dormir de lado, De tentar salvar o que já morreu, De ganhar dinheiro para guardar, De semear onde ninguém quer regar, ...

Destarte

                                        Foto: Karina Klinke  Não se serve mais Do que é banhado a óleo À companhia entendiante. Fritura encharca o sangue Chatice sangra o cérebro. Há ao menos três saídas Pra quem não consegue evitar: Alcachofra Recolhimento E bom senso. (Karina Klinke, outono/2016)

Insustentável

Foto: Karina Klinke Momento comum, Percepção diferente. Pára. Olha o outro. Observa-se. Inusitado sentimento explode. O lugar é o mesmo, As pessoas, as de sempre, Alteraram-se as emoções. Por que isso agora? Pergunta-se. Efeito reverso, Aos sentimentos em curso. És o mesmo? Quem sou eu agora? Talvez o espaço tenha sido Tomado de liberdade. A que nuca se permitiu, Assusta. Mas dá vontade. A noite segue, amanhece. Vai passar, pensa. Não passa. O dia se arrasta, vagarosamente. Racionaliza. Não passa. (By Karina Klinke, outono/2016)

Sem

Foto: Karina Klinke Quando os acontecimentos são intensos, costumo utiliza-los como inspiração para a escrita. Acreditei que as atuais circunstâncias me inspirariam. Para minha surpresa, ela me falta. Talvez porque sejam vazias. Ou porque sejam inócuas. Não consigo rir nem chorar diante dos fatos. Por isso escrevo frases soltas, como solta estou de emoção. Vácuo que não quer preenchimento. (Karina Klinke, verão/2016)

Certeza

Foto: Sofia Klinke Ela disse que voltaria. Deixou suas roupas, seu sapato e a seda que carregava, então conclui: ela volta. Passaram-se algumas semanas, eu não as conto porque tenho medo de saber quantos dias exatamente já se passaram, se eu soubesse isso, enlouqueceria. Teve uma vez - mais ou menos na metade do tempo em que ela se foi e o que eu estou agora - que eu achei que ela havia voltado. Tive certeza. Destrancou a porta, deixou a chave em cima da mesa e foi embora. Só poderia ser ela. Tento me lembrar sempre que acordo se não fui eu quem deixou a chave na mesa, geralmente, refaço todos os movimentos de todos os dias - desde que ela foi embora - g iro a chave uma vez para entrar em casa, sinto o cheiro do gato como se houvessem milhares deles, o cheiro do cigarro e do café que ainda não desceu pela pia que está entupida. Olho a mesa de plástico com a chave em cima, a toalha de mesa com várias cores – a coloquei logo na frente da porta porque parecia vibrante ...

Efeito água

Foto: Luiza Klinke A chuva me proporciona a introspecção e com ela, reflexão. Mistura de frescor, renovação e delírio, por isso minha mente não suporta longos períodos chuvosos, causam-me cansaço mental. As últimas horas dessa demência chuvosa me fez pensar sobre os relacionamentos que presenciei em crise nos últimos dias. Para mim, qualquer comentário que se faça sobre o outro parece banal, visto que os sentimentos são individuais e únicos. Não há padrões que possam represar o que as pessoas sentem, logo, esses são apenas os meus. Por puro egoísmo e necessidade de escoamento da água para além de meus olhos, lanço na escrita o que a mente está cheia, em forma de desague: O que torna os relacionamentos difíceis, parece-me, é a falta de entendimento de si . A velha máxima platônica da necessidade do conhecimento de si para entendimento do outro. Do bom relacionamento consigo para se aventurar no relacionamento com o outro. Nada de novo, só o que cada gota de chuva carr...