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Certeza

Foto: Sofia Klinke

Ela disse que voltaria. Deixou suas roupas, seu sapato e a seda que carregava, então conclui: ela volta.

Passaram-se algumas semanas, eu não as conto porque tenho medo de saber quantos dias exatamente já se passaram, se eu soubesse isso, enlouqueceria. Teve uma vez - mais ou menos na metade do tempo em que ela se foi e o que eu estou agora - que eu achei que ela havia voltado. Tive certeza. Destrancou a porta, deixou a chave em cima da mesa e foi embora. Só poderia ser ela.

Tento me lembrar sempre que acordo se não fui eu quem deixou a chave na mesa, geralmente, refaço todos os movimentos de todos os dias - desde que ela foi embora - giro a chave uma vez para entrar em casa, sinto o cheiro do gato como se houvessem milhares deles, o cheiro do cigarro e do café que ainda não desceu pela pia que está entupida.

Olho a mesa de plástico com a chave em cima, a toalha de mesa com várias cores – a coloquei logo na frente da porta porque parecia vibrante - os bancos frágeis e o telefone no chão atrás da mesa. Do lado tem uma janela grande que ilumina a sala, o colchão que substituiu o sofá tem um lençol azul, mesmo que seja pouco lavado e que agora tenha uma cor estranha. As janelas são cobertas por um pano que não é uma cortina - ela que deu essa ideia horrível de cobrir as janelas - os quartos eu não uso muito, não gosto de usá-los. Entro às vezes para pegar uma roupa que preciso vestir, abro um pouco todo dia para que ele respire, mas é só isso.

Tem o gato também, ela que o trouxe em uma bolsa. Deixei-a esperando na porta umas duas horas nesse dia, acho que choveu. Já estava escuro e eu tinha perdido todos os ônibus que poderia ter pego.
De noite prendo o gato no quarto, ele não costuma reclamar, fica quietinho esperando o outro dia.

O que importa - e a única coisa que deve importar agora - é que eu não me lembro mais dela. Sim, de vez em quando da sua voz, de como ela chorava tanto, de como bebia. Bebia muito. Eu tomava banho bem rápido quando escurecia porque tinha medo de sair e ela já estar dormindo, não podia acordá-la.

Parecia especial, mas suponho que não fosse, uma vez que esses dias aqui sozinha fizeram com que parasse um pouco de parecer. Não que eu tenha me esquecido completamente, mas são esses detalhes dela que eu tranquei em mim. Esses detalhes agora são meus.

Se ela voltar não vai ter como abrir a porta.

(Sofia Klinke, primavera/2015)

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