Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2011

Meu olhar

"Meu olhar, largo olhar de eterna claridade!” escreveu Charles Baudelaire. O que vê esse olhar? Silenciosos e amendoados olhos, Tímidos e às vezes debochados sorrisos, Bochechas que coram, Longos braços de suaves e intensos movimentos, Mãos dedilhantes, Pernas torneadas, marcadas pelas peraltices de outros tempos, Pés largos. Meu olhar gosta de vislumbrar tua silhueta Cada movimento, em um abrir e fechar de pálpebras, como um suspiro! Gestos teus que poucas vezes decifro, mas insisto, Busco no pulsar dos movimentos um sinal de tua estima, Algo que me diga o quanto e como me vês, Tudo em vão. Meu olhar não é teu intérprete, É sonhador, iludido, apaixonado. Ah, tempo perdido... diriam os experientes, Mas eu não me importo. Divirto meus olhos nos teus, Sossego-os ao som de tua voz, Afogo-os em teus abraços, quando posso. (Karina Klinke, verão 2011)

Mesa de Bar [1]

Dois amigos e uma mesa de bar: - Sei lá... Muitas vezes me sinto limitado... - Por quê? Por quem?! - olhar de desaprovação. - Sabes como é... a familia... os brother ... as pessoas falam, julgam... Olhar de estranhamento: - É mesmo? E tu? O que fazes? - Sei lá... acho que me fecho. Reprimo, assusto, tenho medo. - Medo é bom, evita a tragedia. - Então você concorda? Olhar assustado: - Eu? Com o quê? - Em se sentir assim... - Com medo? Sim. - Não é medo. É... sentir-se reprimido. - Mas quem te reprime? - Já disse, os outros, o que pensam, o que dizem, como julgam.,, - Esses outros não tomam atitude?! E ainda permites que te julguem? Quem tem atitude pode ter medo, retroceder, reagir conforme os acontecimentos. Outra atitude, movida pelo medo. É o movimento da vida. No mais... - Tá insinuando o quê? Olhar pro lado, braço levantado: - Garçom, mais uma. (Karina Klinke, primavera 2011)

Fora de cena

Sob o olhar, um gesto, nada se diz. Brinca com as mãos irriquietas, analisa o estrago das unhas. Mexe nos cabelos, enrola-os sobre os ombros. Cabeça ainda baixa, não diz palavra. Passam-se os minutos, o tempo se arrasta. De fato elas são desnecessarias, o silêncio fala por si e os gestos comungam com ele. Quando  são pronunciadas negam e confirmam o que já se sabia. Um observador atento enxergaria, mas todos fingem não ver. Antagonismos vãos. O que se passa? (alguém pergunta num rompante) Olhares se cruzam, finalmente. Abrem-se sorrisos, os olhos se voltam para o chão, palitos quebrados, pontas de cigarro, pés calçados, o quadrado embaixo da mesa. Começa uma falação, um contar sem fim de causos passados, volvem-se sorrisos, olhares, pensamentos divagam. Um toque suave pelas costas. Sai de cena. O relógio conta as horas, que agora voam, finda-se o tempo. O adeus é distante, quase frio, toques suaves demais para demonstrar qualquer emoção. Talvez seja proposital continuar fazendo de...

O caso de Antero - Paredes de Bordel

Antero em seu leito, No deleite da dor descoberta Revela Dianna após o feito O pranto (ou encanto) da morte certa:  - Acho que tenho AIDS... (Sussura Antero) Daqui, dessas paredes pra fora Em mente pretendo viver... O dia é muito grande pra isso conter. Livre do mundo lotado de gente Amarei a todas prostitutas Deusas desnudas indecentemente Amá-las-ei sexualmente. - Acho que tô surtando Antero! Temo tudo ditado nesse sonho Já nenhum carinho eu pondero Nada dessa vida já eu quero. Dias que não vejo o mundo... Dias de morte - entreguei-me ao seu gozo Dias de paz - Já não tem seu doloso dorso - Partindo de nós! (Diz Antero ao fundo). - Jaz é noite Mulher! Durma um pouco. Se for a morte traga-me um trago... Deixo-te em carne viva o meu gozo E levo à tumba a cicatriz do teu cigarro. - Mulher! - Quero ir a morte condenando-a Mordendo desejos, Bocejos na manhã, E os cães raivosos rodeando Até desistir de amar... E você os viciando Aprontando com seu sexo Distorcendo sua dor... ...

Dia d...

“Que saudade da professorinha             Que me ensinou o beabá Onde andará Mariazinha Meu primeiro amor, onde andará?” ( Ataulfo Alves) A “professorinha” de Ataulfo Alves certamente não recebeu essa adjetivação no diminutivo pelo mesmo motivo que recebem as mal remuneradas professoras que conhecemos. Aquela é lembrada como uma mulher que seduziu seu aluno por suas qualidades femininas e, muito provavelmente porque, por meio dela, o “beabá” fez todo o sentido. Por outro lado, as professoras, como outras profissionais do sexo feminino, carregam, há longa data, o peso do gênero, precisam ser bonitas, compreensivas e assexuadas, além de eficientes, inteligentes e altamente qualificadas. Os professores (homens), sem dúvida precisam ser portadores dos três últimos qualitativos, mas podem ser feios, grosseiros e pornográficos, porque, afinal, esse é o símbolo do macho competente. A professora feia é “baranga”, se apresenta maior rigor no trato co...

Pára Tudo

Preciso de um tempo pra elaborar tua partida. De repente o inevitável se encontra tão perto que a súbita aproximação paralisa. Não quero mais decifrar o que estava lendo, nem ouvir o que estava escutando, não consigo chorar e não tenho vontade de sorrir. CONGELADO, este é o meu estado de espírito, de corpo, de pensamento. Não consigo sequer lembrar como era tudo antes... Só o depois... Encontros fortuitos, intensos, conversas, cafés, outro cigarro, uma pro santo, sorrisos... De fato, amigo, você é único, insubstituível. Por isso nós outros, que ficamos, vamos trocar maliciosos olhares quando uma situação nos lembrar você, a cada encontro a memória de ti puxará grandes sacadas, boas risadas outrora partilhadas e a tua ausência te custará longos e-mails, muitas curtas mensagens e um bocado de visitas. Agora peço como Chico, “lava os olhos meus”, sabendo que, a cada reencontro, entoaremos Jobim: “que coisa linda, que coisa louca”...  (Karina Klinke, outono, 2011)

Cultura Zero

(Ruy Castro)  Imagine uma cidade sem cinema, biblioteca ou livraria. Não é difícil, esta é mais ou menos a regra. Bem, se tal cidade existe, também não terá um teatro e, muito menos, um museu. Talvez nem mesmo um jornal, semanal que seja. Muitas não têm nada disso e, apesar de todo o prestígio da música popular, também não contam com uma casa de shows -loja de discos, nem pensar. Donde essas cidades são habitadas por pessoas que nunca assistiram a um filme ou peça de teatro. Espetáculo de dança, esqueça. Nunca ouviram um concerto, nunca viram um quadro ou escultura importante e, bem provável, nunca leram um livro que não fosse o da  lição. Da mesma forma, nunca recitaram ou ouviram um poema, não sabem o que é ópera e os cantores que conhecem é por ouvir falar. Há muitas cidades assim no Brasil. E não pense que sejam burgos perdidos no sertão ou no meio da selva amazônica. Algumas são bem conhecidas pelo nome e ficam em Estados prósperos e orgulhosos, mais pert...

Anotações Insensatas

(Caio Fernando Abreu, Google fotos) Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby. Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta. Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas ...

Parafraseando

No litoral do Brasil [em itálico, partes do original de Caio Fernando de Abreu,  No coração do Brasil ,  OESP - Caderno 2 - 1 abril 1987 ] Lá, onde a  tarde é noite. E o Sul  pode ficar bem ao lado do Pontal. Certa feita, em uma cidade litorânea até então desconhecida, convidaram-me para um tour. Na correria do trabalho, sem outra possibilidade de conhecer as belezas vislumbradas além das vidraças,  no telefone não ouvi sequer o nome  do local a ser visitado.  Quis dizer não, mas porque a vida é mágica e eu tinha esquecido, sem saber por que disse sim. Não guardei o nome do rapaz que telefonava, e voltou a telefonar. Quem, de onde?   Você vem? Sim, eu vou . Dias antes, preparando-me para outro trabalho, escrevia sobre o conhecimento de si, algo que Foucault me ensinara em seus livros. A intenção era analisar esse processo, experimentado por uma mulher pública, em meio às muitas viagens q...

Drumundana

                                                                                               (Google fotos) e agora maria? o amor acabou a filha casou o filho mudou teu homem foi pra vida que tudo cria a fantasia que você sonhou apagou à luz do dia   e agora maria? vai com as outras vai viver com a hipocondria   (Alice Ruiz, Paródia do poema “José”, de  Carlos Drummond de Andrade)

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me?   Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse.   Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.   Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem.   (Carlos Drummond Andrade,  A Rosa do Povo , 1945)

Aula de Vôo - Mauro Iasi

O conhecimento caminha lento feito lagarta. Primeiro não sabe que sabe e voraz contenta-se com cotidiano orvalho deixado nas folhas vividas das manhãs. Depois pensa que sabe e se fecha em si mesmo: faz muralhas, cava Trincheiras, ergue barricadas. Defendendo o que pensa saber levanta certeza na forma de muro, orgulha-se de seu casulo. Até que maduro explode em vôos rindo do tempo que imagina saber ou guardava preso o que sabia. Voa alto sua ousadia reconhecendo o suor dos séculos no orvalho de cada dia. Mas o vôo mais belo descobre um dia não ser eterno. É tempo de acasalar: voltar à terra com seus ovos à espera de novas e prosaicas lagartas. O conhecimento é assim: ri de si mesmo E de suas certezas. É meta de forma metamorfose movimento fluir do tempo que tanto cria como arrasa a nos mostrar que para o vôo é preciso tanto o casulo como a asa.

Receita de Ano Novo

                                                                              (Google fotos) Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido (mal vivido ou talvez sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?). Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Nã...