Mas não se pode agir assim, a
amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o
prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem
decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais,
preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no
meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na
garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby.
Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por
interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e
naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos
outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza
premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa
posta.
Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas
quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de
chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear
subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que
poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o
cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos
mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não,
não suportamos essa doçura.
Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de
acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada,
a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem
as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em
memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem
tivessem sido tão paradisíacos assim.
Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia
matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada,
segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio
mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a
fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque
saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de
ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente
não tinha gosto?
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se
enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato
defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos
conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho
enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de
harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira.
Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, sempre uma vodca a um
copo de leite: metal drástico. Era desses caras de barba por fazer que sempre
escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a
maldição, a noite — a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e
panelas a serem lavados na pia cheia de graxa — mas um hambúrguer qualquer para
você que escrevo. Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me
mata com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota
e nua.
Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar
com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de
qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade
de lidar com. Um instante antes de bater outra, colocar uma velha Billie
Holiday e sentar na máquina para escrever, ainda pensou: gosto tanto de você,
baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida
à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é
para você, para você que escrevo — e não entende nada.
(Caio Fernando Abreu, Cartas, In: MORICONI,
Ítalo (org.). Rio de Janeiro: Ed. Aeroplano, 2002)

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