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Parafraseando



No litoral do Brasil

[em itálico, partes do original de Caio Fernando de Abreu, No coração do BrasilOESP - Caderno 2 - 1 abril 1987]

Lá, onde a tarde é noite.
E o Sul pode ficar bem
ao lado do Pontal.


Certa feita, em uma cidade litorânea até então desconhecida, convidaram-me para um tour. Na correria do trabalho, sem outra possibilidade de conhecer as belezas vislumbradas além das vidraças, no telefone não ouvi sequer o nome do local a ser visitado. Quis dizer não, mas porque a vida é mágica e eu tinha esquecido, sem saber por que disse sim. Não guardei o nome do rapaz que telefonava, e voltou a telefonar. Quem, de onde? Você vem? Sim, eu vou.
Dias antes, preparando-me para outro trabalho, escrevia sobre o conhecimento de si, algo que Foucault me ensinara em seus livros. A intenção era analisar esse processo, experimentado por uma mulher pública, em meio às muitas viagens que fizera. Dias após esse exercício, pouco antes de ir para o litoral, orientava uma aluna. Ela fazia uma autobiografia. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, porque a vida é mágica: conta que cada mudança de cidade lhe trouxera novos desafios. Tonta de saudade súbita, sem a menor lógica, procuro um amigo do Sul no messenger e passamos a conversar sobre os novos rumos que sua vida tomara depois que parou de ficar de cidade em cidade. Ao som de Jim Morrison, um dia viajamos juntos, em sua partida. Ele me lembra que, embora a gente esqueça, a vida é mágica.
Desço para o tour, quase às cinco horas da tarde de quarta. Em meio ao trânsito da avenida alguém acena de um carro: o rapaz do telefone. Entrei e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, está tocando um CD. De repente, lá estamos nós, perto das ondas quebrando na praia, falando de viajens a Paris, Áustria, ao som do Jim Morrison que canta The End.
Corta. Uma jovem se aproxima empunhando, entusiasmada, um conto de Morangos Mofados. Leia, pediu-me. Agora? Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela responde: eu entendo pouco disso, mas é uma bela escrita sobre as mudanças na vida. De repente, ali estou ao lado de uma jovem, falando em viajens e escolhas – e daqueles lugares onde comecei a aprender que a vida pode ser mágica –, lembrando daquelas tardes-noites no litoral, do pôr do sol no cerrado, das manhãs frias no Sul. Longe como numa vida que não fosse mais a minha, dentro e vivo como nessa vida que é exatamente a minha, divido memórias até agora indivisíveis, pelo Brasil. Com a menina-mulher, que lamenta e anseia por viagens e mudanças, justamente quando acabei de voltar: do litoral para o pontal.
Presto atenção nas pessoas da cidade que me cerca (bem representadas por Lou Reed, Velvet Underground e Bukowski), pergunto se nasceram todos por aqui ou se vêm de outros lugares. Sim: Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará, São Paulo, Paraná. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, me convidam para ir até lá, em julho, quando todos saem para rever quem faz parte da vida que deixaram. De repente, aqui estou eu, sozinha no meio dO Morro dos Ventos Uivantes, em plena estrada para Araguaína, Sertãozinho e Xororó no rádio, misturando na insônia a violência urbana do litoral, Goiás, com as águas geladas do Sul. Não, nunca compreendi o que quer dizer “colonização cultural”. Sincretismo, repito morta de sono. Sim-cretismo: umbandistas e luteranos.
Na tarde de quinta, sem saber por que, de frente pro mar, começo a falar compulsivamente sobre Alex Band. Abraço uma árvore (angico, diz o povo do Pontal; castanheira, diz-se no litoral; jacarandá, penso eu), encosto a cabeça em seu tronco espesso e, pela terra onde se cruzam todas as raízes, envio meu pensamento mais forte e mais bonito para AlexNa hora de voltar, tem um céu muito azul no litoral. O rapaz me fala em James JoyceNo avião, leio o conto de Caio Fernando de Abreu e repito com ele: Eu retribuo o sorriso. Eu correspondo ao abraço. Eu digo sim. Eu quero sim. Eu sinto sins. Só porque estou viva. E tudo isso, que parece mágico, é a coisa mais natural do mundo.
Depois o medo da mudança. Na noite – entre o susto da morte outra vez batendo à porta ao lado e ao espanto dos encontros com as pessoas do mundo (elas estão por aí: lindas) – volta a certeza lógica e inabalável de que, aqui ou lá, longe ou perto do coração, no litoral, no Sul ou no Pontal, a vida é mesmo mágica. Isso é simples. Feito uma velha canção de Rita Lee e Roberto de Carvalho: "No fundo sempre sozinho, seguindo o meu caminho."

Karina Klinke, outono de 2011.

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