
“Que saudade da professorinha
Que me ensinou o beabá
Onde andará Mariazinha
Meu primeiro amor, onde andará?”
(Ataulfo Alves)
A “professorinha” de Ataulfo Alves certamente não recebeu essa adjetivação no diminutivo pelo mesmo motivo que recebem as mal remuneradas professoras que conhecemos. Aquela é lembrada como uma mulher que seduziu seu aluno por suas qualidades femininas e, muito provavelmente porque, por meio dela, o “beabá” fez todo o sentido. Por outro lado, as professoras, como outras profissionais do sexo feminino, carregam, há longa data, o peso do gênero, precisam ser bonitas, compreensivas e assexuadas, além de eficientes, inteligentes e altamente qualificadas. Os professores (homens), sem dúvida precisam ser portadores dos três últimos qualitativos, mas podem ser feios, grosseiros e pornográficos, porque, afinal, esse é o símbolo do macho competente. A professora feia é “baranga”, se apresenta maior rigor no trato com os alunos é “histérica” e caso demonstre sinais de sua feminilidade é “vagabunda”. Não fica atrás o(a) professor(a) que foge aos estereótipos dos gêneros: “viado”, “sapatão”, “bichinha”, “efeminado”, “sargentona” e têm sua competência questionada. É o “ciclo da interdição” ao qual nos fala Michel Foucault: “não toques, não consumas, não tenhas prazer, não fales, não apareças; em última instancia não existirás, a não ser na sombra e no segredo”. O que Ataulfo nos lembra, todavia, é que se apaixonar pela “professorinha” é humano, aguça o desejo de aprender e deixa marcas para toda a vida... Não faço uma apologia à pedagogia da sedução, mas quem quer aprender o que não o/a seduz? Hipocrisia fingir que não se tem uma grande admiração, senão amor, a um(a) professor(a) adorado(a) pelo conjunto da obra: sabedoria, simpatia, firmeza, ética, beleza, elegancia, ousadia... Encantamo-nos pelos inúmeros qualitativos que um ser humano pode expressar e com eles aprendemos! Mas a lição dos cursos de formação é outra: “Renuncia a ti mesmo sob pena de seres suprimido; não apareças se não quiseres desaparecer. Tua existência só será mantida à custa de tua anulação.” (Foucault) Então, quem somos nós, professores e professoras? Afinal, se há um "dia d" há um processo de "Invenção das Tradições", como escreveu Eric Hobsbawm, e dele participamos.
(Karina Klinke, outubro, 2011)
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