Foto: Karina Klinke
Nestas noites quentes de primavera,
quando estamos você e eu, gasto horas e horas olhando seu olhar que olha o meu.
Eu, em vestes brancas, leves, esvoaçantes, olho para seus desejos que às vezes
me assustam. Quando você sorri e posso ver seus dentes cerrados sinto um pouco
de medo, temo pelo desejo que sentes por mim, pois sou frágil, e em você não há
fragilidade, há um desejo imenso tal qual tenho quando me dedico a mover as
engrenagens do mundo, tal qual sinto vivendo bravamente. Você me deseja de uma
maneira poderosa, um frenesi, e tímida, minha fragilidade, teme completamente
ser devorada. Temo por desintegrar-me em teus braços. Temo não conseguir
controlar a intensidade de você em mim, esse seu desejo de que eu entre em
você. E eu que fico passando a mão por seus braços, por seu ventre, por seu
rosto. Você que no íntimo me olha e me diz que me esperou tanto! Que por vezes
imaginou que não nos encontraríamos nesta existência. Isso provoca-me um choro
emocionado, um medo repentino que você parta sem que eu possa olhar para dentro
de seus olhos como nunca olhei. Choro antecipando o dia de nossa despedida, o
momento em que nos uniremos em um mundo no qual não haja mais dores,
sofrimentos, incertezas. Personifico-me em pura ansiedade, roo as unhas, choro,
coço as pernas, passo as mãos pelos cabelos, mordo os lábios, choro a dor de
nossas mortes.
(RICARDO NOGUEIRA, primavera/2016)
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