Meu pai é militar. Estudei em três escolas militares. Escolas Públicas,
diga-se. E tenho muitos amigos e amigas, da infância e da adolescência, que
carrego comigo, no meu coração, na minha identidade.
A gente assistiu o Cel. Andrade Neves dar a ordem para retirarem o nome
do Lamarca da placa de formatura no Colégio Militar de Porto Alegre. Nunca nos
explicaram a razão objetiva daquilo.
Havia o Cel. Brandão, que fora colega de turma do Lamarca, que nos
corredores dizia: nunca conheci um homem mais inteligente e com maiores
habilidades no trato com as pessoas, com a tropa e com as armas. Era um atleta
completo. Toda vez que tentavam reprovar alguém por milésimos, toda a vez que
tentavam expulsar alguém, era o Cel. Brandão que defendia os alunos. Sim,
aquele Coronel que elogiava o Lamarca.
Nós tivemos aulas, com o Gal. Matias, que levava um pedaço do tijolo do
Muro de Berlim para dentro da sala de aula, e explicava: de um lado, Ferrari’s
e vinhos caros, do outro, vinho de garrafão e Chevette’s.
Naqueles dias, nós não entendíamos as contradições daqueles senhores.
Era muita pressão das famílias, muito desejo de sermos desejados e aceitos por
nossos desejos. A gente fumava escondido, tomava vinho de garrafão, escutávamos
muita música, e planejávamos o futuro, ou, ao menos, tentávamos planejar o
futuro.
E na nossa sabedoria adolescente, a gente identificava, os caras legais
e os caras babacas. Na nossa sabedoria juvenil, a gente sabia que a filosofia,
era algo mais generoso do que dividir a humanidade entre quem tem ferrai e quem
tem Chevette, era uma burrice. Na nossa inteligência, primária, generosa, a
gente sabia que quem proibia as crianças de andarem de mãos dadas no pátio do
colégio, era estúpido.
E a música era muito importante para nos ensinar a diferenciar o certo
do errado. Muitos, dos princípios éticos que carrego comigo, não aprendi nas
aulas de Filosofia ou de História, mas das canções da Legião Urbana, do Cidadão
Quem e até da Shakira (uma feminista, diga-se!).
Hoje, no ônibus, escutei 1965 Duas Tribos, da Legião Urbana. E recordei destas
coisas. E pensei que eu e meus amigos de infância, nunca desejamos o ódio, a
morte, a ditadura...
A gente falava de amor, de fraternidade, de beleza, de um mundo mais
interessante...
Estou dizendo isso porque percebi que, profundamente, me dói, perceber que nós
crescemos, e que alguns de nós, perderam o apreço pela generosidade, pelo
desejo de uma sociedade menos autoritária e desigual ... e que, sem perceber,
talvez, tenham se tornado Mabildi’s, Matias ...
A este respeito, e com todo o respeito e carinho, quero dizer que ainda
ando fumando escondido no banheiro. Saio da aula e vou lá no Papillon, bebo a
minha Pepsi e fumo meu crivo. Vou no Cine Baltimore e transito pela Oswaldo
Aranha. E guardo, ainda, a mesma certeza de quem identifica seus opressores e
se rebela, e sobrevive, porque a vida precisa ser mais bela e generosa para
todos, e não somente para alguns.
O BRASIL É O PAÍS DO FUTURO!
(Cícero Santiago de Oliveira - primavera 2014)

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