Eventualmente, faço uns bicos de mãe
para ajudar uma amiga em pequenas tarefas como levar um menino na escola,
buscar o outro no inglês, ficar alerta caso os filhos dela precisem de algo nas
ocasiões em que ela se ausenta da cidade por motivos profissionais. Gosto dos
meninos e até me divirto com o título de “mãe-substituta” que inventamos para
mim, nessas ocasiões.
Acontece que fui surpreendida por
uma demanda um pouco maior do que um levar e buscar aqui ou acolá, na última
noite.
Imaginem comigo: um dia intenso de
trabalho, sob um sol escaldante. O cansaço era tanto que eu me deitei, mas não
conseguia dormir. Nua em pelo, sem a obrigação de qualquer moralidade,
levantei-me, peguei uma cerveja no congelador, troquei algumas palavras com uma
amiga no Facebook, escolhi uma série de TV daquelas que não demandam qualquer
atividade cerebral. Voltei pra cama.
De luzes apagadas, sorvi gole a
gole minha bebida, repousei a garrafa no chão, ao lado da cama, e por ali
mesmo, adormeci, pensando na beleza da vida adulta e independente.
Eu mal tinha me acomodado nos
braços de Morfeu, quando meu celular, na cabeceira da cama, começa a vibrar.
Identifico a chamada e o horário: minha amiga, após as doze badaladas (e a
consciência repentina de que os três filhos estavam sem ela e geograficamente
longe dela).
Atendi e a cada palavra dela, o
sono e a esperança da noite tranquila foram sendo substituídas pela vigília
imediata. Ao fim da conversa, eu já estava vestida e pronta para socorrer o
menino de 8 anos que, assustado, na casa do colega, não conseguia dormir e
chorava inconsolável.
Cruzei a cidade (ok, acidade é
pequena, mas acho que isso ajuda a me fazer parecer heroica), resgatei o
pequeno que garantiu que ficaria bem na minha casa.
E ficou! Mas, eu e minha rotina
sofremos uma metamorfose instantânea:
1. De noite, meu sono ficou leve. Ele deu
uma sonambulada a noite, eu acordei só com o movimento dele levantar a cabeça
do travesseiro no colchão no chão ao lado da minha cama. Acordei para cobri-lo,
porque ele estava gelado e depois pra descobri-lo, porque estava pingando.
Acordei para perguntar se queria ir ao banheiro e, ao amanhecer, acordei para
fechar a janela que inundava o quarto de luz.
2. Por fim, acordei para começar o dia,
antes dele. Tomei banho, fui à padaria para buscar pão e preparei um café não
completo, mas minimante decente para alguém que está em fase decrescimento. (Se
estou sozinha, como umas bolachas, um pedaço de qualquer coisa, um iogurte ou
até uma insossa xícara de chá e pronto.)
3. Escrevi tese, acompanhando lição de casa,
o que significa sair do raciocínio da psicanálise tentando entender o que acontece
numa relação entre orientador e orientando para responder para o menino, em
palavras de dias de semana, o que é a Via Láctea.(Nessa hora, achei a
psicanálise mais fácil, confesso)
4. Passei a manhã controlando o relógio
entre a hora da lição de casa, o banho, o almoço, o trajeto até escola.
5. Tive que dar uma engrossada frente à
típica resistência dos meninos ao banho, refutando o argumento do moço que
tinha tomado banho às 21h do dia anterior, ou seja, exatas 15h no calor do
cerrado brasileiro. (Quem conhece, sabe do que estou falando).
6. Cruzei de volta acidade (isso realmente
dá ares de heroísmo à tarefa mais prosaica) para entregar o menino na escola e
garantir sua formação intelectual e
7. Cheguei pontualmente às 13h no meu
compromisso profissional, já completamente exausta pela amostra grátis da
maternidade.
Fim de tarde. Devolvo o menino à
segurança doseio familiar e, em meio a risos já afirmava para quem quisesse
ouvir “Valeu a experiência! Não quero saber de filho”, quando sou surpreendida
com a fala dele para a irmã mais velha: “A noite foi tão boa! Foi uma coisa
esplêndida!”. Com esse gracejo bem humorado, que velava uma gratidão carinhosa,
fui a nocaute com um só golpe. Sigo firme como um pugilista rendido no ringue na
minha (in)decisão de (não) ser mãe.
(Mical Marcelino (Notas) em 15 de abril de 2013 às 20:03)
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