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Doute suce

(Pour mes amis, qui d'identifier) Apagar da memória, Fazer de conta que nada existe, Que são volúpias da imaginação. Afinal, Ilusões são passageiras, Sonhos não se concretizam, Move-se à força do hábito de ser feliz, E se buscam prazeres nunca satisfeitos... Tudo em vão. Apesar dos pesares, Continua-se enxergando as marcas, Ouvindo vozes, Sentindo suores, Trocando conversas, Pensando, sonhando, desejando,  Esperando o próximo telefonema, A outra mensagem, Novos encontros. Noites e noites de sonhos e pesadelos, Dias que não passam, Tudo só tem um sentido: O perto-longe, o longe ao lado, Horas que são marcadas por relógios alheios E seu relógio emocional quer o tempo todo. Invadem o corpo, os pensamentos,  Reproduzem-se os gestos. Desajeitado medo da repetição do nada, Das perdas, dos vazios, das desilusões. Incógnitas que nunca serão decifradas, Só a experiência explica E o coração acalenta. Merde....

E agora, Maria?

O que chamamos "amor"  Nesta sociedade hipócrita e mal resolvida? O desejo? A posse? A vaidade? O medo da solidão? Motivos há muitos para se dizer "amo", Difícil é decifrar sua origem  E a intencionalidade de seu destino... Seja como for, atesto, "amo": Luz, sombra, caminhos, destinos, Olhares, cheiros, corpos, sonhos, Passagens, bloqueios, frios, suores, Debates, inspirações e tudo O que significa "vida" Em abundância. (Karina Klinke, outono de 2012)

Samba Canção

Foto: Juliana Freitas Tantos poemas que perdi, Tantos que ouvi, de graça pelo telefone - taí, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de mesuras (era uma estratégia), fiz comércio, avara, embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de  spots , talvez apenas teu carinho,  mas tantas, tantas fiz...  (Ana Cristina Cesar, A teus pés, Companhia das Letras)

O dito pelo não dito

Queria dizer muitas coisas... Mas meu pudor não deixa, O medo me retrai, A coragem é pouca, As ilusões me impedem. Deixo-me ouvir E confundo os dizeres em meus desejos. Procuro me mostrar sem palavras, Assim nunca sei como entendem... Também não saberia se dissesse, Porque cada qual ouve como pensa, Sente o quanto permite, Vê o que quer. Sigo imaginando como seria se soubessem E prossigo em silêncio Que tudo sente, tudo sonha, Tudo permite e sufoca... (Karina Klinke, outono 2012)

Partida

Sua ida me deixa saudades Mas sei que é egoísmo meu Porque este é o seu caminho Sua trajetória Seu percurso Como o meu: vim graças a você, Cresci e tive muitas conquistas porque sempre pude contar contigo Sou quem sou porque tinha você ao meu lado, Agora sou egoísta e quero que você fique... Por outro lado, crio coragem e digo: Vai meu amor, segue teu caminho E leve contigo a certeza de que minha existência é conquista tua, Antes mesmo de ser minha. Deixe que a luz acompanhe tua viagem Sei que tu também não vais me esquecer Nem me abandonar Estaremos eternamente juntos Porque os laços de amor são indestrutíveis. Segue em paz e leva minha gratidão contigo. (Karina Klinke, 34 anos depois de sua partida)

NÓS

Andar pela cidade,  A chuva, o filme, o almoço, a reunião,  O trânsito, o livro, a mensagem, a música...  Lembranças que me levam até você. Onde estás, com quem, para onde vais, Dormiu bem, acordou cedo, viajou? Perguntas que te buscam. Sorrisos, calafrios, calor na face, algumas lágrimas... Sensações que nos aproximam. (Karina Klinke, outono 2012)

Atesto

Hora desejo que meus olhos Revelem-te o que sinto, Outrora fujo. Temo reações As tuas e as minhas sobre as tuas. Parece-me impossível Esconder-me De ti, de mim em ti. Escolho fingir um não olhar Mas o teu me atrai E dissimulo um falsete, Brinco com as ilusões... (Karina Klinke, verão 2012)

Lugar nenhum

Não fui educado para ser mulher. E o que há de mulher em mim, a sociedade repudia... Se “ela” não flui de mim, falo da outra, daquela que idealizo... Falo do desconhecido, do imaginado. Não delas, mas para elas. (Será que) falo? Nessa viagem transgênero, nesse esforço descomunal, olho as mulheres à minha volta: mãe, irmã, namorada, amante, professora, avó, tia, prima, vizinha, cunhada, esposa, colega, sogra, concunhada, amiga... São tantas e tão diferentes  que me confundo com o “ser mulher”. Tantas versões que é impossível juntá-las sob um só nome, mesmo que todas recebam as expectativas de um (e esse é um só) “vir a ser”; esse que advém de outras tantas mulheres e de tantos outros homens: pai, irmão, namorado, amante, sogro,  avô, tio, primo, vizinho, cunhado, esposo,concunhado, amigo..  Cada uma e cada um impondo-lhe o que imaginam ser mulher... E elas “vão sendo”... Conscientemente ou não, fazem-se mulheres. Ainda que nem sempre libertas da imposição do ...

Entre humanos e livros

I "Aquilo de que você se livra, desfaz, te quer. E aquilo que não te quer, você guarda? SER HUMANO !!!" (A.J.R.M.) II "Isto e Aquilo. livro disto, Me livro daquilo humano livro quer quer livro humano disto e daquilo livro humano, livro, livro me livro do isto e fico com aquilo livro todos..." (A.J.R.M. e K.K.)

Em nome do pudor da sociedade (hipócrita)

É preciso conter esses excessos fraternos. Parar de expressar ternura diante os problemas alheios, não ter remorso por fazer o outro esperar, deixar de se emocionar com o sorriso amigo, não beijar em público quem conta suas historias, disfarçar o brilho nos olhos ante as conquistas de outrem, dissimular a preferência pela companhia dos demais... Assim a sociedade não te discriminará. (Karina Klinke, verão 2012)

Chuvas de verão

Teci minha rede de sonhos e fiz um rascunho de tudo o que era belo.  Foi então que descobri lindeza onde ninguém a via e dor quando todos sorriam.  Um paradoxo tão simples que me fez chorar, como tudo que é singelo faz sentir.  Idas e vindas, prazeres insólitos, costumes rompidos...  Como diz Marcelo Camelo, "a estrada vai além do que se vê..." (Karina Klinke - verão, 2012

2012

Chegou manso, molhado. Jogou sua cabeleira gotejante sobre nós Como que dizendo: envolvo-te, possuo-te. E foi nos tomando, cabelos, rosto, braços, tronco, pernas, pés, Lenta e suavemente. Depois, noite estrelada e a lua a nos mirar... Quero-te assim, 2012! Cada dia um chegar diferente. (Karina Klinke, verão, 2012)

Meu olhar

"Meu olhar, largo olhar de eterna claridade!” escreveu Charles Baudelaire. O que vê esse olhar? Silenciosos e amendoados olhos, Tímidos e às vezes debochados sorrisos, Bochechas que coram, Longos braços de suaves e intensos movimentos, Mãos dedilhantes, Pernas torneadas, marcadas pelas peraltices de outros tempos, Pés largos. Meu olhar gosta de vislumbrar tua silhueta Cada movimento, em um abrir e fechar de pálpebras, como um suspiro! Gestos teus que poucas vezes decifro, mas insisto, Busco no pulsar dos movimentos um sinal de tua estima, Algo que me diga o quanto e como me vês, Tudo em vão. Meu olhar não é teu intérprete, É sonhador, iludido, apaixonado. Ah, tempo perdido... diriam os experientes, Mas eu não me importo. Divirto meus olhos nos teus, Sossego-os ao som de tua voz, Afogo-os em teus abraços, quando posso. (Karina Klinke, verão 2011)

Mesa de Bar [1]

Dois amigos e uma mesa de bar: - Sei lá... Muitas vezes me sinto limitado... - Por quê? Por quem?! - olhar de desaprovação. - Sabes como é... a familia... os brother ... as pessoas falam, julgam... Olhar de estranhamento: - É mesmo? E tu? O que fazes? - Sei lá... acho que me fecho. Reprimo, assusto, tenho medo. - Medo é bom, evita a tragedia. - Então você concorda? Olhar assustado: - Eu? Com o quê? - Em se sentir assim... - Com medo? Sim. - Não é medo. É... sentir-se reprimido. - Mas quem te reprime? - Já disse, os outros, o que pensam, o que dizem, como julgam.,, - Esses outros não tomam atitude?! E ainda permites que te julguem? Quem tem atitude pode ter medo, retroceder, reagir conforme os acontecimentos. Outra atitude, movida pelo medo. É o movimento da vida. No mais... - Tá insinuando o quê? Olhar pro lado, braço levantado: - Garçom, mais uma. (Karina Klinke, primavera 2011)

Fora de cena

Sob o olhar, um gesto, nada se diz. Brinca com as mãos irriquietas, analisa o estrago das unhas. Mexe nos cabelos, enrola-os sobre os ombros. Cabeça ainda baixa, não diz palavra. Passam-se os minutos, o tempo se arrasta. De fato elas são desnecessarias, o silêncio fala por si e os gestos comungam com ele. Quando  são pronunciadas negam e confirmam o que já se sabia. Um observador atento enxergaria, mas todos fingem não ver. Antagonismos vãos. O que se passa? (alguém pergunta num rompante) Olhares se cruzam, finalmente. Abrem-se sorrisos, os olhos se voltam para o chão, palitos quebrados, pontas de cigarro, pés calçados, o quadrado embaixo da mesa. Começa uma falação, um contar sem fim de causos passados, volvem-se sorrisos, olhares, pensamentos divagam. Um toque suave pelas costas. Sai de cena. O relógio conta as horas, que agora voam, finda-se o tempo. O adeus é distante, quase frio, toques suaves demais para demonstrar qualquer emoção. Talvez seja proposital continuar fazendo de...

O caso de Antero - Paredes de Bordel

Antero em seu leito, No deleite da dor descoberta Revela Dianna após o feito O pranto (ou encanto) da morte certa:  - Acho que tenho AIDS... (Sussura Antero) Daqui, dessas paredes pra fora Em mente pretendo viver... O dia é muito grande pra isso conter. Livre do mundo lotado de gente Amarei a todas prostitutas Deusas desnudas indecentemente Amá-las-ei sexualmente. - Acho que tô surtando Antero! Temo tudo ditado nesse sonho Já nenhum carinho eu pondero Nada dessa vida já eu quero. Dias que não vejo o mundo... Dias de morte - entreguei-me ao seu gozo Dias de paz - Já não tem seu doloso dorso - Partindo de nós! (Diz Antero ao fundo). - Jaz é noite Mulher! Durma um pouco. Se for a morte traga-me um trago... Deixo-te em carne viva o meu gozo E levo à tumba a cicatriz do teu cigarro. - Mulher! - Quero ir a morte condenando-a Mordendo desejos, Bocejos na manhã, E os cães raivosos rodeando Até desistir de amar... E você os viciando Aprontando com seu sexo Distorcendo sua dor... ...

Dia d...

“Que saudade da professorinha             Que me ensinou o beabá Onde andará Mariazinha Meu primeiro amor, onde andará?” ( Ataulfo Alves) A “professorinha” de Ataulfo Alves certamente não recebeu essa adjetivação no diminutivo pelo mesmo motivo que recebem as mal remuneradas professoras que conhecemos. Aquela é lembrada como uma mulher que seduziu seu aluno por suas qualidades femininas e, muito provavelmente porque, por meio dela, o “beabá” fez todo o sentido. Por outro lado, as professoras, como outras profissionais do sexo feminino, carregam, há longa data, o peso do gênero, precisam ser bonitas, compreensivas e assexuadas, além de eficientes, inteligentes e altamente qualificadas. Os professores (homens), sem dúvida precisam ser portadores dos três últimos qualitativos, mas podem ser feios, grosseiros e pornográficos, porque, afinal, esse é o símbolo do macho competente. A professora feia é “baranga”, se apresenta maior rigor no trato co...

Pára Tudo

Preciso de um tempo pra elaborar tua partida. De repente o inevitável se encontra tão perto que a súbita aproximação paralisa. Não quero mais decifrar o que estava lendo, nem ouvir o que estava escutando, não consigo chorar e não tenho vontade de sorrir. CONGELADO, este é o meu estado de espírito, de corpo, de pensamento. Não consigo sequer lembrar como era tudo antes... Só o depois... Encontros fortuitos, intensos, conversas, cafés, outro cigarro, uma pro santo, sorrisos... De fato, amigo, você é único, insubstituível. Por isso nós outros, que ficamos, vamos trocar maliciosos olhares quando uma situação nos lembrar você, a cada encontro a memória de ti puxará grandes sacadas, boas risadas outrora partilhadas e a tua ausência te custará longos e-mails, muitas curtas mensagens e um bocado de visitas. Agora peço como Chico, “lava os olhos meus”, sabendo que, a cada reencontro, entoaremos Jobim: “que coisa linda, que coisa louca”...  (Karina Klinke, outono, 2011)

Cultura Zero

(Ruy Castro)  Imagine uma cidade sem cinema, biblioteca ou livraria. Não é difícil, esta é mais ou menos a regra. Bem, se tal cidade existe, também não terá um teatro e, muito menos, um museu. Talvez nem mesmo um jornal, semanal que seja. Muitas não têm nada disso e, apesar de todo o prestígio da música popular, também não contam com uma casa de shows -loja de discos, nem pensar. Donde essas cidades são habitadas por pessoas que nunca assistiram a um filme ou peça de teatro. Espetáculo de dança, esqueça. Nunca ouviram um concerto, nunca viram um quadro ou escultura importante e, bem provável, nunca leram um livro que não fosse o da  lição. Da mesma forma, nunca recitaram ou ouviram um poema, não sabem o que é ópera e os cantores que conhecem é por ouvir falar. Há muitas cidades assim no Brasil. E não pense que sejam burgos perdidos no sertão ou no meio da selva amazônica. Algumas são bem conhecidas pelo nome e ficam em Estados prósperos e orgulhosos, mais pert...

Anotações Insensatas

(Caio Fernando Abreu, Google fotos) Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby. Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta. Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas ...

Parafraseando

No litoral do Brasil [em itálico, partes do original de Caio Fernando de Abreu,  No coração do Brasil ,  OESP - Caderno 2 - 1 abril 1987 ] Lá, onde a  tarde é noite. E o Sul  pode ficar bem ao lado do Pontal. Certa feita, em uma cidade litorânea até então desconhecida, convidaram-me para um tour. Na correria do trabalho, sem outra possibilidade de conhecer as belezas vislumbradas além das vidraças,  no telefone não ouvi sequer o nome  do local a ser visitado.  Quis dizer não, mas porque a vida é mágica e eu tinha esquecido, sem saber por que disse sim. Não guardei o nome do rapaz que telefonava, e voltou a telefonar. Quem, de onde?   Você vem? Sim, eu vou . Dias antes, preparando-me para outro trabalho, escrevia sobre o conhecimento de si, algo que Foucault me ensinara em seus livros. A intenção era analisar esse processo, experimentado por uma mulher pública, em meio às muitas viagens q...