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Existe a Outra

Foto: Karina Klinke Garota, você mudou...  Eu mudei também.  Estava acostuma com você precisando de mim pra tudo e tudo o que eu lhe dava era motivo de sorriso, beijinhos, um obrigada arrematado com sincero "eu te amo".  Eu achava que sabia de você,  que poderia lhe dar o mundo!  Claro que cometi enganos, mas nenhuma de nós entendia isso. Nossa mudança foi gradual, conflituosa, e gerou dor em nós duas. Agora você aponta meus defeitos e eu me revolto, aponto os seus também e acabamos discutindo. Nenhuma quer abrir mão de suas razões. Afinal, somos outras uma com a outra. E queremos impor nosso novo Eu. Amor? Não duvido que exista, mas a necessidade de liberdade fala mais alto. Parece que queremos apagar a imagem da outra em nós.  Queremos ser únicas. Difícil compartilhar espaços,  amigos, familiares, sentimentos. Temos medo de ser engolidas uma pela outra. Mesmo assim sinto saudades de nós duas juntas... acho que ainda quero lhe dar o mundo, mas você ...

A quem interessar possa

A hora é sempre a sua, nunca a minha, A forma é a que você quer, não eu, Lugares são você quem escolhe, os meus são inadequados. Angústias só você tem, eu não,  Seus desejos sempre sobrepõem aos meus, Seus medos fazem sentido, os meus são paranoias,  Devo respeitar suas ideias, as minhas são insanas.   Você diz que não vive sem mim, Mas é só pra alimentar seu alter ego. Quer saber? Tô ocupada agora. (Karina Klinke - inverno 2014)

Ranking

Pablo Picasso - Guernica, 1937 Desafio do século: Ranking do feto: desenvolvimento biológico. Ranking do nascituro: perfeição fisiológica. Ranking da primeira infância: habilidade motora. Ranking da segunda infância: capacidade cognitiva. Ranking da puberdade: formosura. Ranking da adolescência: ENEM ou trabalho. Ranking da juventude: vigor. Ranking da meia idade: sucesso. Ranking da maturidade: riqueza. Ranking da terceira idade: sanidade. Ranking da velhice: resignação. Ranking do moribundo: não incomodar. Mais de um desses pode ser esperado ao mesmo tempo em qualquer fase da existência. Cuidado: se ceder a quaisquer exigências pode estar mais desequilibrado do que se não cumprir as expectativas listadas. Sugestão: liberte-se. (Karina Klinke, inverno 2014)

Paisagem Revisitada

Ah, o tempo... uma incógnita.  Passa ou se renova? O ontem de hoje,  eram trevas,  altera-se em regozijo.  A lua,  há tempos minguante,  fica cheia. O bar, a música, o perfume, antes lembranças, agora são prazeres. As lágrimas vertidas viram sorrisos regados ao doce som das palavras. O relógio, ainda mais lento, aguarda o próximo encontro.   (Karina Klinke, outono 2014)

Presente de Dia das Mães

Dirigindo o carro pela cidade, o filho de 10 anos, sentado ao lado, sai com essa, em pleno segundo domingo de maio: - Mãe, eu tava pensando... se não fosse você na minha vida eu seria um bosta. - Oi?! - É... tudo que eu sou de bom é por causa de você. Silêncio.  (Karina Klinke, outono 2014)

Prisões

Foto: Karina Klinke Das prisões construídas pela e para a humanidade  a pior é aquela que aprisiona o ser por dentro,  reduz o olhar,  tolhe sentimentos, impede experiências,  confunde o "eu" e o "outro",  ensimesma e sufoca. (Karina Klinke, verão 2014)

Constatação literária

Recentemente reorganizei minha estante de livros que, desde o último estudo, há cinco anos, andava praticamente abandonada para interesses particulares. Hoje consegui, dadas as novas circunstâncias, consultar meus velhos livros, que antes se perdiam em desorganização e poeira. Abro o primeiro, Ok; o segundo, Ok também; o terceiro, Ok. Mas no quarto livro faço uma viagem no tempo...  Encontro riscos que não reconheço como meus e, finalmente, anotações, escritas que me remetem à observação: alguém mais visitou este livro e de alguma forma, mais ou menos próxima, esta pessoa fez parte de minha vida.  Dada a liberdade de tê-lo rabiscado, concluo que se sentia íntimo o bastante. Isto eu não sabia antes. Agora que reconheço a letra (obviamente porque houve intimidade para tanto), constato: foi recíproco.  Ah, os livros, fonte ilimitada de saber!  (Karina Klinke, verão 2014)

Lira dos Quarenta

Vocês foram chegando assim, devagarinho, meio tímidos, mas chegaram. Tomaram conta de mim, do meu corpo, do meu ser, até me dominarem por completo. Deixaram-me mais bonito, mais atrativo, mais homem. Bem marotos, derramaram neve em meus cabelos, marcaram com um garfo o contorno dos meus olhos e ainda não entendi o porquê, afundaram minhas órbitas oculares. Será por isso que não vejo mais nada bem? E que confusão é essa que aprontaram? De perto preciso tirar os óculos e de longe, somente vejo com eles. O problema é que nem tudo é somente perto ou longe. As coisas ora estão perto, ora longe. Das dúvidas que restam nesta idade a que mais me intriga e não ter certeza se o amor realmente existe. Eu gostaria muito que existisse amor eterno, que fosse possível passar a vida sempre só com uma pessoa, um amor. Não me sinto confortável em dizer que o amor não existe, assim como não tenho plena convicção de que ele exista. Fico entre a dúvida e a esperança que ele se revele para mim. Não s...

A falta

   (Vincent Van Gogh - "A noite estrelada" - 1889)                            Diante das saudades que não cediam Fui te procurar em meus sonhos E para surpresa minha, onde estavas? Em lugar nenhum. Percebi então que não és mais um devaneio, Um sujeito platônico. Estás em meu cotidiano, Em lugares concretos, Num envolvimento constante de dramas e sorrisos. És uma pessoa que participa de minha vida Não mais uma fantasia, Agora um humano. Tuas lágrimas e alegrias me contagiam Enternecem-me, aliviam-me, assustam-me. Então penso: este é tu mesmo ou continuo sendo eu, Que te vejo, desejo e oculto nos recantos de minha ilusão? Sabe-se lá o que os sentimentos provocam, Não há controle, Não quero controle, Prefiro o devaneio. Legítimo ou arrebatamento, Existes assim para mim. Às vezes desejo saber como sou pra ti, Iss...

Mical

M as que menina levada, não tem medo da vida e não gosta de se sentir enganada I ntimida os trouxas que dela se aproximam de cara lavada por causarem mágoa C arinho dobrado pros amados! A miga dedicada, a qualquer hora e até na hora de não fazer nada... L á se vai o seu sorriso, encantando todo mundo que nem merece seu cuidado. Ah, amada, se soubesse fazer versos te entregava um por dia pra falar dessa amizade escancarada... Um salve nesse teu dia!!! (Karina Klinke, 18 de agosto de 2013)

Da culpabilização

O chavão atribuído a Rui Barbosa: "Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem", tem servido de ícone para a culpabilização do outro. Todavia,   Quando você se deixa enganar o faz porque "se deixa", fantasia.  Como a criança birrenta, que exige o que não deve e continua insistindo.  A maturidade traz o discernimento e a tranquilidade diante das muitas desilusões vividas.  Com ela vem o esclarecimento de que há plenitude tanto nas lágrimas quanto nos sorrisos, porque a realidade é tudo o que temos.  (Karina Klinke,  inverno 2013)

A (in)decisão de (não) ser mãe

           Eventualmente, faço uns bicos de mãe para ajudar uma amiga em pequenas tarefas como levar um menino na escola, buscar o outro no inglês, ficar alerta caso os filhos dela precisem de algo nas ocasiões em que ela se ausenta da cidade por motivos profissionais. Gosto dos meninos e até me divirto com o título de “mãe-substituta” que inventamos para mim, nessas ocasiões.             Acontece que fui surpreendida por uma demanda um pouco maior do que um levar e buscar aqui ou acolá, na última noite.             Imaginem comigo: um dia intenso de trabalho, sob um sol escaldante. O cansaço era tanto que eu me deitei, mas não conseguia dormir. Nua em pelo, sem a obrigação de qualquer moralidade, levantei-me, peguei uma cerveja no congelador, troquei algumas palavras com uma amiga no Facebook, escolhi uma série de TV daquelas que não demandam...

Terceira Voz

O grito de horror, as lágrimas saltando aos olhos e o corpo contraído foram suas primeiras expressões do pânico que carregaria por toda sua infância e que ainda a fazem derramar lágrimas sentidas por sua ausência. Bastam de acusações a terceiros, fazê-la sofrer desta forma é intolerável. Não percebe que está perdendo o afeto de quem você magoa simplesmente por não enxergar que é amado? A quem quer punir? A si mesmo por se julgar não merecedor de tão magnífica companhia? A ela é que não pode ser. Alguém tão encantadora que precisa de sua proteção e carinho, é injusto. Ela não merece. Verbalizo as lágrimas e a tristeza que ela espalha por toda parte desde que entendeu que você não estaria ao seu lado hoje. Você  era o único presente que ela realmente esperava.  Ao contrário de trocar afetos, ela está aprendendo a acreditar que não merece celebrar a própria vida, mediante as expectativas frustradas.  Maltrate quem julgar que merece, mas aceite este amor inocent...

Herrar é umano

Muitas vezes pensamos que trilhamos o caminho certo Ou ao menos um caminho  bom . Dá-se um passo, dois, depois mais um Tudo parece possível Heis que no meio do caminho tinha uma pedra Exu Tranca-Rua sai à frente E agora, José? Sei não... O jeito é ler poesia, Escrever para cuspir o fogo Correr pra se sentir em movimento. E quando der de parar, soltar o grito: Cruz credo, que foi isso maquinista? Volta-se à realidade, Vê-se que está no mesmo lugar donde partiu Ou noutro, pior, melhor, nunca se sabe Mas tem-se que continuar em movimento Tem que se olhar no espelho de novo Encarar a si e o que de si não se tem mais Olhar pro outro e enxergar Tudo o que de seu fê-lo assim. Ah, dor infinita do erro! (Karina Klinke, primarvera 2012)

A geração da utopia

... sorriu para o céu, para as pessoas que nela não reparavam, metidas para dentro. (Pepetela. A geração da utopia )

Labirinto

"Eu não sou quem você pensa que sou E você não é quem eu penso que é" Será que sabemos quem somos, afinal? Ou procuramos no outro Aquilo que jamais seremos? Ah! dúvida atroz... Enquanto questionamos Deixamos o tempo remoer as marcas do passado. (Karina Klinke, inverno de 2012)

Doute suce

(Pour mes amis, qui d'identifier) Apagar da memória, Fazer de conta que nada existe, Que são volúpias da imaginação. Afinal, Ilusões são passageiras, Sonhos não se concretizam, Move-se à força do hábito de ser feliz, E se buscam prazeres nunca satisfeitos... Tudo em vão. Apesar dos pesares, Continua-se enxergando as marcas, Ouvindo vozes, Sentindo suores, Trocando conversas, Pensando, sonhando, desejando,  Esperando o próximo telefonema, A outra mensagem, Novos encontros. Noites e noites de sonhos e pesadelos, Dias que não passam, Tudo só tem um sentido: O perto-longe, o longe ao lado, Horas que são marcadas por relógios alheios E seu relógio emocional quer o tempo todo. Invadem o corpo, os pensamentos,  Reproduzem-se os gestos. Desajeitado medo da repetição do nada, Das perdas, dos vazios, das desilusões. Incógnitas que nunca serão decifradas, Só a experiência explica E o coração acalenta. Merde....

E agora, Maria?

O que chamamos "amor"  Nesta sociedade hipócrita e mal resolvida? O desejo? A posse? A vaidade? O medo da solidão? Motivos há muitos para se dizer "amo", Difícil é decifrar sua origem  E a intencionalidade de seu destino... Seja como for, atesto, "amo": Luz, sombra, caminhos, destinos, Olhares, cheiros, corpos, sonhos, Passagens, bloqueios, frios, suores, Debates, inspirações e tudo O que significa "vida" Em abundância. (Karina Klinke, outono de 2012)

Samba Canção

Foto: Juliana Freitas Tantos poemas que perdi, Tantos que ouvi, de graça pelo telefone - taí, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de mesuras (era uma estratégia), fiz comércio, avara, embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de  spots , talvez apenas teu carinho,  mas tantas, tantas fiz...  (Ana Cristina Cesar, A teus pés, Companhia das Letras)

O dito pelo não dito

Queria dizer muitas coisas... Mas meu pudor não deixa, O medo me retrai, A coragem é pouca, As ilusões me impedem. Deixo-me ouvir E confundo os dizeres em meus desejos. Procuro me mostrar sem palavras, Assim nunca sei como entendem... Também não saberia se dissesse, Porque cada qual ouve como pensa, Sente o quanto permite, Vê o que quer. Sigo imaginando como seria se soubessem E prossigo em silêncio Que tudo sente, tudo sonha, Tudo permite e sufoca... (Karina Klinke, outono 2012)

Partida

Sua ida me deixa saudades Mas sei que é egoísmo meu Porque este é o seu caminho Sua trajetória Seu percurso Como o meu: vim graças a você, Cresci e tive muitas conquistas porque sempre pude contar contigo Sou quem sou porque tinha você ao meu lado, Agora sou egoísta e quero que você fique... Por outro lado, crio coragem e digo: Vai meu amor, segue teu caminho E leve contigo a certeza de que minha existência é conquista tua, Antes mesmo de ser minha. Deixe que a luz acompanhe tua viagem Sei que tu também não vais me esquecer Nem me abandonar Estaremos eternamente juntos Porque os laços de amor são indestrutíveis. Segue em paz e leva minha gratidão contigo. (Karina Klinke, 34 anos depois de sua partida)

NÓS

Andar pela cidade,  A chuva, o filme, o almoço, a reunião,  O trânsito, o livro, a mensagem, a música...  Lembranças que me levam até você. Onde estás, com quem, para onde vais, Dormiu bem, acordou cedo, viajou? Perguntas que te buscam. Sorrisos, calafrios, calor na face, algumas lágrimas... Sensações que nos aproximam. (Karina Klinke, outono 2012)

Atesto

Hora desejo que meus olhos Revelem-te o que sinto, Outrora fujo. Temo reações As tuas e as minhas sobre as tuas. Parece-me impossível Esconder-me De ti, de mim em ti. Escolho fingir um não olhar Mas o teu me atrai E dissimulo um falsete, Brinco com as ilusões... (Karina Klinke, verão 2012)