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Em tempos de poder masculino, branco e abastado


(Guernica - de Pablo Picasso - exposto pela primeira vez em 1937)
Para meu filho.

Tornar-se homem na sociedade em que vivemos é complexo.
Exige ser forte, sedutor, inteligente, charmoso, abastado, capaz de enfrentar quaisquer obstáculos, galanteador, conquistador e segue uma longa lista de expectativas sociais.
Educados há longa data para ser tudo isso, esses “pobres moços”, confundem-se e se perdem na aventura do “tornar-se”.
Boa parte deles se sente aquém das expectativas.
Não sabem o que fazer com seus corpos sarados, magros, gordos... pois aprenderam somente a ser viris. Se negros, sentem-se na obrigação de ser objetos sexuais, se não, na obrigação de ser algo mais que os negros. Se não se sentem viris – o que é fácil, pois virilidade exige uma superpotência desumana – consideram-se menos homens que outros homens, já que têm dúvidas sobre quais partes de seu corpo, seu intelecto, seu ego (e do alheio), pode ser explorada além do falo e de uma vagina.
Nesta condição, seduzir quem? Como? Com qual intensidade? Para qual finalidade? Afinal, o que desejam aquelas de corpo feminino? O que lhe cobram os outros homens? Posto que seduzir outro corpo masculino é uma desonra à categoria “homem”.
Então os menos fortes e, em hipótese, menos sedutores, recorrem à inteligência. Encontram, nisso, outra contradição. A pessoa assim considerada costuma ser “educada”, o que, segundo os dicionários da Língua Portuguesa, significa: polida, sociável, conveniente, adequada, apropriada, discreta, cortês, afável, agradável, amável, atenciosa, cerimoniosa, complacente, delicada, diplomática, fina, respeitosa, tratável, amestrada, domesticada, hábil, alumiada, enfronhada, comunicativa, disciplinada, distinta, gentil, refinada, respeitadora, reverente, simpática... Mas como se filiar a características que a sociedade classifica como próprias da feminilidade? Daí, mesmo que intelectualmente desenvoltos, procuram manter a postura de macho e recaem na angústia da virilidade.
Com a virilidade corrompida ou assumida, entram em contradição no quesito “charmoso” ou "convincente". Duvidam: “Afinal, o que esperam de mim? Isto ou aquilo?”
Na tentativa de fugir desse impasse, apegam-se ao adjetivo “abastado”. Mas para ser abastado nos dias de hoje não basta estudar, nascer em uma família renomada, labutar, conquistar posto de prestígio ou se destacar profissionalmente. No capitalismo contemporâneo não se sabe ao certo, além da corrupção, o que garante “bastar a si próprio”, pois homem que é homem garante seu sustento, sua ostentação e o sustento de todos à sua volta: familiares, cônjuge, amantes, prole, amigos, amigas, além de doar para a caridade.
Como, então, enfrentar tantos obstáculos à sua condição masculina?
Última opção: ser galanteador e ganhar a sociedade por meio da retórica, ou seja, da persuasão. Aqueles deslumbrados por demonstrar virilidade, usam o linguajar e as atitudes "de macho": usam palavras e gestos chulos, com investidas grosseiras, por meio das quais mais agridem quem desejam conquistar do que seduzem (para o sexo, a amizade ou postos de destaque social).
Já os que pretendem demonstrar inteligência usam frases de efeito em todas as situações em que se sentem inseguros. Simulam erudição. Citam autores, de preferência filósofos renomados, cineastas famosos, músicos consagrados, literatos canônicos, todos homens, pois por meio do interdiscurso querem se mostrar tão inteligentes quanto.
Ambos podem persuadir na esfera pública (porque há lisongeadores que caem em suas falácias), mas como na intimidade não há como sustentar a farsa por muito tempo, a conquista de toda ordem é breve, superficial, acabam solitários, de novo com as angústias do “tornar-se homem”. 
Relaxem!!! 
Parceiros e parceiras de trabalho e de vida  (em sua maioria, embora nem todos e todas assumamdesejam hoje respeito pelo que se é, satisfazer-se quando devidamente acalentado/a, ser livre para escolher seus parceiros e parceiras (outro medo do típico macho), experimentar relacionamentos diferentes, de toda ordem, outros corpos, ter independência financeira, emocional, sexual, intelectual. Simplesmente (não que o seja de fato), viver como as sociedades sempre conceberam os homens, o lado melhor de ter nascido com o corpo masculino (que elas não têm).
Os que nasceram com corpo masculino e gostam de se relacionar com outras pessoas de corpos masculinos sofrem com maior intensidade as angústias do “tornar-se homem” desde tenra idade. Bem como se beneficiam de suas vantagens... Assim, esses podem ter maior identificação com os (dis)sabores desse “tornar-se”. Ou ao contrário, exatamente por isso vivam conflitos ainda mais tensos quando em um relacionamento homoafetivo. Têm consciência do que esperam dele e de seu parceiro, então um conflito maior pode se instaurar por sofrerem duplamente. Mas, minimamente, entendem do que se trata. 
Talvez uma saída para esses dilemas de “tornar-se”, seja tomar consciência de que a sociedade projeta em nós suas próprias angústias. Não somos livres para além do que o liberalismo nos limitou.
Assumirmos essa condição, precária, de que somos herdeiros dos dilemas sociais e não precisamos nos render a eles para além da vida pública – talvez o único lugar que faça sentido atender a demanda social para não sermos execrados e impossibilitados de auto sustento – tenha efeito amenizador. São lógicas muito diferentes, a vida pública e a vida privada, segundo Maquiavel, devido à “alquimia política”, na qual uma virtude se torna um defeito em outra esfera. Lembra-nos G.K.Chersterton (2009):
“Se eu não sou uma figura pública, nem quero ser, não tenho que ser tratado como tal; se os média decidem transformar-me numa figura pública sem a minha prévia aquiescência, não tenho que ser penalizado por isso sujeitando-me involuntariamente a um tratamento próprio de figura pública, sem que o seja”.
Advém disto que, na vida privada, é possível “ser” e deixar as outras pessoas serem... 
Já na vida pública, predomina o imperialismo do macho: austero, grosseiro, persuasivo, ludibriador, autoritário e dominador. Quem estiver à sua volta que se conforme, porque é "homem". 
Assim caminha a humanidade brasileira. 

(Karina Klinke, outono/2016)





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