Pular para o conteúdo principal

A ida


Sem sombra de dúvidas, eu queria ir embora. Era um desejo muito bem escondido dentro de mim, tão bem escondido que às vezes eu me esquecia completamente dele.
Parava assim, como quem não quer nada e isso bastava para que por dentro viesse uma maré de raiva. Era só ter arrumado tudo em uma trouxa e partir. Que criasse vergonha na cara, a ida já tinha sido várias  vezes premeditada.
Primeiro eu arregalava os olhos, gritava por dentro, mordia as paredes de ódio e depois enterrava a fuga. Sangrava um sangue de quem não precisava passar por nada disso. Pegue as suas coisas e vá embora. 
Eu não tenho a resposta, talvez eu curta um masoquismo. Só pensava, amanhã é certeza, amanhã eu vou embora.
Acordava como se estivesse de ressaca, uma voz sempre ressoava: Peraí, mas você não disse que de hoje não passava?
Quem? Eu? Você deve estar me confundindo. E começava tudo de novo. Eu quero ir embora, de hoje não passa.
Cavava uma cova pela manhã, de tarde cuspia dentro dela o meu  segredo e cobria com a terra. Durante a noite eu desenterrava, me jogava na cova e lá eu dormia. De amanhã não passa.
Pensa, era só eu ter ido embora, pegado o primeiro ônibus, do primeiro dia que tomei essa decisão que nunca, nunca se decisava.
Uma noite tomei muita raiva, um copo cheio. Se eu tivesse ido embora no primeiro dia que eu tive essa ideia. Agora não adianta mais, se fosse no primeiro dia. Agora, olha como está. Olha! Se eu fosse mais alta, se eu fosse mais corajosa, se eu fosse mais esperta, se eu fosse embora.
Nunca mais eu volto, é certeza. De hoje não passa.

(Sofia Klinke, junho/2018)

Comentários