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É só uma parte


Maurício Gomes

Parte de mim é silêncio
Palavras privadas
Parte de mim são círculos nas águas
Circunspecto
Parte de mim é uma aparência de um sonho destruído
Parte de mim são estátuas esculpidas em praças
Braço esquerdo decepado
Corpo carcomido pelo tempo e pela acidez do ar
Parte de mim é rapsódia
Fulcral e folclórica
Uma parte de mim é uma fronteira invisível
Paro antes
Uma parte de mim não é dia e nem noite
Sombras, somente
Uma parte de mim é funambulesco
Mise en abyme
Uma parte de mim é riso decadente
Macambúzio
Uma parte de mim Sein zum tode
Sem salvação
Uma parte de mim são conexões randômicas
Sem validade
Uma parte de mim carrega na pele o medo
As mãos de Platão são sombras noturnas
Uma parte de mim Maleficarum
Um Kraemer ou Sprenger
Uma parte de mim busca a imortalidade
Limpo os ossos e sopro o pó de Gilgamesh
Uma parte de mim é Maurício
Às vezes, a mesma parte é Antônio, é Maria
É Antenor, é Sebastiana, é Lourdes.
Uma parte de mim é.
Uma parte de mim está antes do zero.
Antes do início.

(Maurício Gomes, outono/2018)

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