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Depois do Dia dos Pais

Foto: Karina Klinke

Muito me indigna o que o machismo, o patriarcalismo e o capitalismo construíram sobre a imagem do Pai, a começar pela definição implacável dos opostos: masculino e feminino. A partir dessa dualidade, constituem-se modelos sociais nos quais ao Pai cabe ser:

Viril: audacioso, bravo, enérgico, determinado. Logo, se não demonstrar essas características, é considerado medroso, covarde, fraco, pasmado, estático, derrotado, frágil, frouxo, preguiçoso, indiferente, apático, inseguro, confuso, efeminado, amaricado. Para manter a aparência viril, desde a infância lhe são reforçadas características que nem sempre dizem respeito à suas tendências. Isto não é responsabilidade exclusiva dos homens, as mães e outras mulheres fazem questão de impor a macheza a quem nasce do sexo masculino. Roupas, brinquedos, tarefas e atitudes são definidas na dualidade: homem não pode... homem deve...

Sob tais determinações, cresce acreditando nestes estereótipos e, na idade adulta, assume-os ou os renuncia, sob a pena da discriminação social. Essa acontece principalmente entre as pessoas mais próximas, aquelas que o criaram, e se espalham entre as mulheres que o cercam. Outros homens (viris) talvez também o rejeitem, mas entre as mulheres é o que há de mais ameaçador, pois se quiser conquista-las terá que seguir os padrões da virilidade: tem que as desejar SEMPRE e deve ter condições econômicas para satisfazer suas expectativas. Qualquer sinal de fraqueza torna o homem indesejável.

Por outro lado, o viril pode tudo: revoltar-se, agredir, obrigar, ter várias parceiras (se alguém descobrir que há parceiros, então ele é “viado”), desresponsabilizar-se da paternidade. Como ele tem que “ficar com todas” e “dar conta”, ele pode ter engravidado muitas e nem saber disso, porque para ser viril, basta espalhar seu sêmen. Ainda no auge de sua virilidade ele pode dizer das mulheres que “pegou”: são vadias. Ele está só administrando sua virilidade.

Provedor: ele tem que sustentar, independente das condições da economia nacional. Se ele não consegue oferecer o que há de melhor para os seus, é vagabundo ou fracassado. Quando consegue, na maioria das vezes, é às custas de ficar distante dos entes queridos, com tempo restrito para vivenciar a paternidade.

As duas expectativas contribuíram para fazer da imagem do Pai uma figura distante da realidade cotidiana de seus filhos e filhas, que passam longos anos com necessidades de sobrevivência que vão muito além da alimentação, do vestuário, do abrigo, do consumo. Os cuidados e os afetos são feminilidades, logo, ao ser desresponsabilizado dessa importante tarefa, é jogado para fora do ambiente doméstico, para bem prover a subsistência e o consumismo.

As delicadezas e as sensibilidades nessa perspectiva não são bem vistas para a figura masculina por toda a sua vida, mas quando ele se torna Pai, aí sim lhe são exigidas, além do sustento. Mas a sociedade não lhe permitiu antes demonstrar suscetibilidades, então como lidar com tais contradições? Quem assumiu a vida toda a postura de viril e provedor será socialmente ridicularizado se, ao virar Pai, demonstrar emoções que são determinadas ao sexo oposto. Dependendo da cultura do meio, será rebaixado a “babaca”.

Por outro lado, o Pai pode se tornar um ser idolatrado nessa composição social, porque nela, assumir a paternidade é uma excentricidade. Torna-se quase um herói. Tudo o que ele faz é “lindo”, já que poucos fazem. Acordar na madrugada, trocar fraldas, ser carinhoso, subsidiar a existência... um semideus.

Essas contradições de papéis é objeto de estudo há séculos, em vários campos do conhecimento, contudo, as sociedades ainda as debatem e se assustam com outras formas de viver que as contradizem.

Para agravar, as sociedades capitalistas lembram anualmente que existe um dia para reviver a dor: daquelas pessoas que têm Pai distante, das que não o conheceram, das que não receberam seu afeto, das que não têm dinheiro para gastar com comemorações, dos Pais que perderam ou não conheceram seus filhos e filhas e dos que abandonaram a prole. Neste dia, quem gostaria de ser Pai e não pode (por quaisquer motivos), também sofre. Já aquelas pessoas que, por opção (não por abandono), não querem essa experiência, revivem a chateação das cobranças feitas devido à sua decisão.

Por isso, minha admiração, respeito e carinho a quem consegue se libertar das amarras da sociedade machista, patriarcal, capitalista e sobrevive ao dia em que o comércio comemora seus lucros.

Meus parabéns a quem assume sua decisão (premeditada) de não ser Pai e aos Pais, de qualquer sexo, que têm dedicação, carinho, buscam o sustento e o bem-estar daqueles e daquelas que se dispõem a ter como filhos e filhas, de modo igualitário com sua parceira ou parceiro, quando têm um/a.

Finalmente o dia dos pais passou. Boa sorte no próximo ano!!!


(Karina Klinke, inverno 2015)

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