Profª Drª Maria Generosa Ferreira Souto
Unimontes
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RESUMO: Este artigo tem a intenção de apresentar o que hoje pesquiso: autores mineiros, cuja produção em prosa e verso encontra-se fora do cânone, porém trazem contribuições importantes para a cultura local e global. Pretende valorizar a obra de escritores norte-mineiros, muito oportuna num momento em que se discute o cânone, e ousa mostrar o que chamam, teimosamente, de a literatura da exclusão, a literatura periférica, a literatura confessional, a literatura enjaulada, também dita marginal ou das bordas. Este texto faz parte do corpus da pesquisa Escritores das Bordas Literárias, em andamento, realizada na Universidade Estadual de Montes Claros.
PALAVRAS-CHAVES: Literatura brasileira – cânone – Escritores mineiros.
O intuito deste trabalho é o de apresentar à Academia 50 nomes de escritores mineiros, cujas produções em prosa e verso encontram-se adormecidas, baças, achadas “menores”, consideradas à margem do cânone. Por isto, provocamos o assunto. A discussão acerca do cânone é antiga e, permanentemente, surgem indagações do tipo: “Estar dentro do cânone, depois de morto ou estar no cânone, em vida?” Eis a questão. Não quero, aqui, montar uma conspiração contra a literatura clássica, pelo contrário, acho-a importante, grandiosa, necessária. Todos devemos estudá-la, mas não somente ela.
O debate sobre o cânone continua, ainda, teimosamente, ligado a vários aspectos, principalmente à dominante da época, como por exemplo: dominantes ideológicas, estilo de época, gênero dominante, geografia, sexo, raça e classe social, os mais fortes e os mais fracos, como escreveu e mostrou ao mundo Harold Bloom (2005), numa espécie de cardápio, como se dissesse o que pode e o que deve ser lido como literatura. Continua, portanto, uma espécie de etiqueta. Bloom preocupou-se em distinguir os poetas “fortes” dos “fracos”. Destacou-se sempre por escrever sem cerimônias, visando a separar o joio do trigo, analisando, criticando ou recomendando bons e maus textos.
Por esta razão, o trabalho de Bloom prescrevendo um cânone consagrado no Ocidente causa rebuliços no mundo acadêmico e mesmo fora dele. Enquanto conjunto orgânico ou articulado de livros eleitos por seu valor estético, a demarcação de um cânone ocidental é acusada de ser autoritária por feministas, marxistas, pós-colonialistas e outras correntes de pensamento pós-modernas. Bloom tenta se defender, alegando que não é o responsável pelas próprias escolhas: haveria um processo de canonização, incluindo e substituindo os títulos na medida em que os escritores fazem escola ou são esquecidos e abandonados pelos leitores. Isto é o que ele diz.
Sabe-se que aquilo que é canonizado em certas épocas, é esquecido noutras; o que foi esquecido pode ser resgatado em outra. Bom exemplo disso é o que aconteceu com Alexandre Dumas, em Portugal, com Qorpo Santo e Sousândrade, no Brasil, e com o grande nome Charles Baudelaire, na França.
Sempre ao arrepio das vanguardas literárias e dos cânones nobilitadores das belas letras, primícia literária para todos os grandes e pequenos leitores, foi escarnecida e refugada pelas academias, onde se criva o que passa e o que fica.
Até que, como num instante de encanto, Alexandre Dumas – um dos tais autores que todos leram, mas de cuja prole poucos se reivindicam – ascendeu ao Panteão dos Imortais e transformou-se em clássico, repousando os seus restos mortais na companhia de Voltaire, de Rousseau, de Vitor Hugo, de Émile Zola e de Fénelon.
Os estudos culturais têm postulado uma crítica da representatividade do cânone, enquanto fator de exclusão, ou seja, de Homero a Joyce, o cânone privilegia um padrão eurocêntrico composto por uma maioria de escritores mortos, brancos e homens. Esse padrão, ao ser endossado e perpetuado, discrimina e alija a produção literária que opera fora dessas premissas.
As universidades, instituições de conservação e resistência, que haviam recusado este tipo de literatura, resolveram encarar de frente o incômodo intruso, num misto de dúvida benevolente e de fastio. Mas, logo logo retomam os pré-conceitos. Elas continuam aplicando o mesmo modelo que aprenderam; aplicando a relação de poder, aplicando o poder dos grupos e, sobretudo, o poder do eixo Rio/São Paulo, aplicando a mesmice, pois só é canonizado o escritor que, vivendo nessas regiões, pode frequentar determinados círculos de influência, professores dos cursos de pós-graduação, críticos literários, redatores de jornais, por exemplo, resenhistas como os dos grandes jornais Folha de São Paulo ou Jornal do Brasil. Como exemplo: a Folha de São Paulo prefere analisar estrangeiros, traduzidos pela Companhia das Letras. Apenas os escritores mais conhecidos obtêm guarida em suas páginas. É raríssimo aparecer um escritor brasileiro desconhecido. De vez em quando, a Folha abre uma exceção, porém nunca para escritores da província.
Isso tudo faz parte do cânone, das histórias do cânone. Sempre será assim, mas não podemos calar todas as vezes. Provocar é preciso!
A Universidade brasileira continua mestra em perpetuar a mesmice. Estuda e analisa os mesmos escritores, os mesmos nomes de sempre, em todos os programas de pós-graduação. Quando estuda a contemporaneidade, é raro que chegue aos nossos dias, preferindo permanecer nos canonizados Guimarães Rosa e Clarice Lispector, que, é claro, devem ser estudados, mas, não só dos dois vive uma literatura!. De vez em quando, alguns nomes novos são elevados à "dignidade" dos currículos, são contemplados até nas provas dos vestibulares, e são canonizados. E, prova máxima da canonização, são estudados e apresentados nos encontros da ANPOLL ou da ABRALIC. Muitos sucumbem, e nunca mais re-aparecem. Outros caem no gosto do leitor e estão canonizados, mas, se escutam a voz da etiqueta, menosprezam-nos dizendo não ser literatura.
Uma curiosidade dos escritores à margem. Observa-se que, em geral, são excluídos dos cânones: o popular, o humor, o satírico, a prostituta e o erótico. O baixo é excluído. Permanece o alto. É a etiqueta da literatura. Por que não se arriscar por mares nunca dantes navegados?
É claro e notório que o cânone literário não é uma seleção de obras feita por uma elite, que se reúne para decidir quais serão canonizadas ou não. Há todo um processo de seleção, formação e preservação de uma obra literária. Obviamente, há uma valorização da obra, quando se considera que ela contém qualidades que a distinguem e a tornam melhor do que outras.
Por toda esta discussão é que precisamos trazer nomes outros, escritores outros do verso e da prosa para a Academia.
É aqui o lugar que nos estimula a repensar o poeta para aquém ou para além do engajamento, ultrapassando os limites da paisagem urbana, local, regional, universal. É aqui o lugar para estimular o esquecimento e a memória, o real e o imaginário, o artístico e o cultural; o sagrado e o profano; as amizades homoerotizadas ou homossexualizadas; a nação e a periferia; o belo e o feio; as figurativizações do passado-no-presente.
Muitos certamente passarão a ser sinônimos na literatura brasileira contemporânea, como sinônimo é Adão Ventura Ferreira Reis, nascido em 1946, em Santo Antônio do Itambé, Distrito de Serro/MG. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (Editora Comunicação, 1976).
As universidades, instituições de conservação e resistência, que haviam recusado este tipo de literatura, resolveram encarar de frente o incômodo intruso, num misto de dúvida benevolente e de fastio. Mas, logo logo retomam os pré-conceitos. Elas continuam aplicando o mesmo modelo que aprenderam; aplicando a relação de poder, aplicando o poder dos grupos e, sobretudo, o poder do eixo Rio/São Paulo, aplicando a mesmice, pois só é canonizado o escritor que, vivendo nessas regiões, pode frequentar determinados círculos de influência, professores dos cursos de pós-graduação, críticos literários, redatores de jornais, por exemplo, resenhistas como os dos grandes jornais Folha de São Paulo ou Jornal do Brasil. Como exemplo: a Folha de São Paulo prefere analisar estrangeiros, traduzidos pela Companhia das Letras. Apenas os escritores mais conhecidos obtêm guarida em suas páginas. É raríssimo aparecer um escritor brasileiro desconhecido. De vez em quando, a Folha abre uma exceção, porém nunca para escritores da província.
Isso tudo faz parte do cânone, das histórias do cânone. Sempre será assim, mas não podemos calar todas as vezes. Provocar é preciso!
A Universidade brasileira continua mestra em perpetuar a mesmice. Estuda e analisa os mesmos escritores, os mesmos nomes de sempre, em todos os programas de pós-graduação. Quando estuda a contemporaneidade, é raro que chegue aos nossos dias, preferindo permanecer nos canonizados Guimarães Rosa e Clarice Lispector, que, é claro, devem ser estudados, mas, não só dos dois vive uma literatura!. De vez em quando, alguns nomes novos são elevados à "dignidade" dos currículos, são contemplados até nas provas dos vestibulares, e são canonizados. E, prova máxima da canonização, são estudados e apresentados nos encontros da ANPOLL ou da ABRALIC. Muitos sucumbem, e nunca mais re-aparecem. Outros caem no gosto do leitor e estão canonizados, mas, se escutam a voz da etiqueta, menosprezam-nos dizendo não ser literatura.
Uma curiosidade dos escritores à margem. Observa-se que, em geral, são excluídos dos cânones: o popular, o humor, o satírico, a prostituta e o erótico. O baixo é excluído. Permanece o alto. É a etiqueta da literatura. Por que não se arriscar por mares nunca dantes navegados?
É claro e notório que o cânone literário não é uma seleção de obras feita por uma elite, que se reúne para decidir quais serão canonizadas ou não. Há todo um processo de seleção, formação e preservação de uma obra literária. Obviamente, há uma valorização da obra, quando se considera que ela contém qualidades que a distinguem e a tornam melhor do que outras.
Por toda esta discussão é que precisamos trazer nomes outros, escritores outros do verso e da prosa para a Academia.
É aqui o lugar que nos estimula a repensar o poeta para aquém ou para além do engajamento, ultrapassando os limites da paisagem urbana, local, regional, universal. É aqui o lugar para estimular o esquecimento e a memória, o real e o imaginário, o artístico e o cultural; o sagrado e o profano; as amizades homoerotizadas ou homossexualizadas; a nação e a periferia; o belo e o feio; as figurativizações do passado-no-presente.
Muitos certamente passarão a ser sinônimos na literatura brasileira contemporânea, como sinônimo é Adão Ventura Ferreira Reis, nascido em 1946, em Santo Antônio do Itambé, Distrito de Serro/MG. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (Editora Comunicação, 1976).
Adão Ventura escreveu cinco livros de poesia. O mais conhecido é A cor da pele, de 1980, cujo tema apresenta as experiências do homem negro brasileiro. Participou de antologias poéticas em vários países. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada por Italo Moriconi. Adão Ventura fundou, juntamente com Afonso Ávila e outros escritores o Suplemento Literário de Minas Gerais. Além de escritor, foi roteirista e participante do filme Chapada do Norte (1979). Na década de 90, atuou como Juiz Classista, e foi presidente da Fundação Cultural Palmares. Faleceu no ano de 2004.
É aqui, portanto, que devemos valorizar a obra de escritores mineiros, momento oportuno em que se discute o cânone e ousa mostrar o que chamam, teimosamente, de a literatura da exclusão, a literatura periférica, a literatura confessional, a literatura enjaulada, a paraliteratura, também dita marginal ou literatura das bordas.
Flávio Koethe (2004) ressalta que o cânone não é bonzinho e nem reconhece o mérito pelo mérito. Diz que ele seleciona o que serve a seus propósitos políticos, sob a aparência de eles serem apenas artísticos. [...] . Menciona, também, que um autor ser canônico não significa que toda a sua obra esteja enquadrada no cânone. Pelo contrário, a seleção é sempre mínima. Resta a alguns críticos, a partir disso, a esperança de reformar o cânone, mantendo os mesmos autores e modificando apenas alguns títulos seus (KOTHE, 2004, p. 43, 44).
Este texto faz parte do corpus da pesquisa Escritores Mineiros das Bordas Literárias, em andamento, realizada na Universidade Estadual de Montes Claros, razão por que passaremos a mencionar, numa espécie de desfile, os nomes que farão parte do Guia Literário de Autores Mineiros, que serão publicados em um site, e, posteriormente em livro, apresentando vida e obra, de 50 autores desconhecidos, mas que pretendemos estudar, nos moldes, como fizeram com Baudelaire.
Poesia: Adão Ventura, Edimilson de Almeida Pereira, Aroldo Pereira, Jove da Mata, Josué Alves Martins, Dário Cotrim, Rodrigo Guimarães, Fábio Alves Ferreira, Nair de Deus Prado Faria, Aníbal Oliveira Freire, Marijô, Jandira Braga do Rosário, Lena Guimarães, Gildete dos Santos Freitas, Janete Ferreira da Silva, Marli Fróes, Gy Reis, Gilmar Pereira, Márcio Adriano Silva Moraes, Jason de Moraes, José Prudêncio Macedo, Edson F. Andrade, Newton Brito de Almeida, Josué Alves Martins, Maurílio Néris de Andrade Arruda, Theresa Campos Pereira, João Damasceno de Almeida, Renato Carneiro Viana, Herbert Frota, Wanderlino Arruda, Mírian Carvalho.
Prosa: Manoel Ambrósio Júnior, José Antônio de Souza, Geraldo Ribas, Petrônio Braz, João Naves de Melo, João Botelho Neto, Antônio Ferreira Cabral, Corby Aquino, Humberto Antunes Madureira, João Balaio, Geraldo Tito Silveira, Antônio Henrique de Matos Viana, Maria da Glória Caxito Mameluque, Amelina Chaves, Maria Pires, Wanderlino Arruda, José Wilson Barbosa, Marluce Barbosa e Carla Silene Campos. Waldemar Uezébio.
Sendo assim, eis os nomes, não como a lista de Bloom, mas que mostro e penso como José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Repare, portanto, os nossos escritores mineiros desentranhados do cânone, falando de sua aldeia, para depois falarem do universo.
É aqui, portanto, que devemos valorizar a obra de escritores mineiros, momento oportuno em que se discute o cânone e ousa mostrar o que chamam, teimosamente, de a literatura da exclusão, a literatura periférica, a literatura confessional, a literatura enjaulada, a paraliteratura, também dita marginal ou literatura das bordas.
Flávio Koethe (2004) ressalta que o cânone não é bonzinho e nem reconhece o mérito pelo mérito. Diz que ele seleciona o que serve a seus propósitos políticos, sob a aparência de eles serem apenas artísticos. [...] . Menciona, também, que um autor ser canônico não significa que toda a sua obra esteja enquadrada no cânone. Pelo contrário, a seleção é sempre mínima. Resta a alguns críticos, a partir disso, a esperança de reformar o cânone, mantendo os mesmos autores e modificando apenas alguns títulos seus (KOTHE, 2004, p. 43, 44).
Este texto faz parte do corpus da pesquisa Escritores Mineiros das Bordas Literárias, em andamento, realizada na Universidade Estadual de Montes Claros, razão por que passaremos a mencionar, numa espécie de desfile, os nomes que farão parte do Guia Literário de Autores Mineiros, que serão publicados em um site, e, posteriormente em livro, apresentando vida e obra, de 50 autores desconhecidos, mas que pretendemos estudar, nos moldes, como fizeram com Baudelaire.
Poesia: Adão Ventura, Edimilson de Almeida Pereira, Aroldo Pereira, Jove da Mata, Josué Alves Martins, Dário Cotrim, Rodrigo Guimarães, Fábio Alves Ferreira, Nair de Deus Prado Faria, Aníbal Oliveira Freire, Marijô, Jandira Braga do Rosário, Lena Guimarães, Gildete dos Santos Freitas, Janete Ferreira da Silva, Marli Fróes, Gy Reis, Gilmar Pereira, Márcio Adriano Silva Moraes, Jason de Moraes, José Prudêncio Macedo, Edson F. Andrade, Newton Brito de Almeida, Josué Alves Martins, Maurílio Néris de Andrade Arruda, Theresa Campos Pereira, João Damasceno de Almeida, Renato Carneiro Viana, Herbert Frota, Wanderlino Arruda, Mírian Carvalho.
Prosa: Manoel Ambrósio Júnior, José Antônio de Souza, Geraldo Ribas, Petrônio Braz, João Naves de Melo, João Botelho Neto, Antônio Ferreira Cabral, Corby Aquino, Humberto Antunes Madureira, João Balaio, Geraldo Tito Silveira, Antônio Henrique de Matos Viana, Maria da Glória Caxito Mameluque, Amelina Chaves, Maria Pires, Wanderlino Arruda, José Wilson Barbosa, Marluce Barbosa e Carla Silene Campos. Waldemar Uezébio.
Sendo assim, eis os nomes, não como a lista de Bloom, mas que mostro e penso como José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Repare, portanto, os nossos escritores mineiros desentranhados do cânone, falando de sua aldeia, para depois falarem do universo.
REFERÊNCIAS
BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
KOETHE, Flávio. O cânone republicano II. Brasília: UnB, 2004.

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