As
ordens da madrugada
romperam
por sobre os montes:
nosso
caminho se alarga
sem
campos verdes nem fontes.
Apenas
o sol redondo
e
alguma esmola de vento
quebram
as formas do sono
com
a idéia do movimento.
Vamos
a passo e de longe;
entre
nós dois anda o mundo,
com
alguns vivos pela forma,
com
alguns mortos pelo fluído.
As
aves trazem mentiras
de
países sem sofrimento.
Por
mais que alargue as pupilas,
mais
minha dúvida aumento.
Também
não pretendo nada
senão
ir andando à toa,
como
um número que se arma
e em
seguida se esboroa,
- e
cair no mesmo poço
de
inércia e de esquecimento,
onde
o fim do tempo soma
pedras,
águas, pensamento.
Gosto
da minha palavra
pelo
sabor que lhe deste:
mesmo
quando é linda, amarga
como
qualquer fruto agreste.
Mesmo
assim amarga, é tudo
que
tenho, entre o sol e o vento:
meu
vestido, minha música,
meu
sonho e meu alimento.
Quando
penso no teu rosto,
fecho
os olhos de saudade;
tenho
visto muita coisa,
menos
a felicidade.
Soltam-se
os meus dedos ristes,
dos
sonhos claros que invento.
Nem
aquilo que imagino
já
me dá contentameno.
Como
tudo sempre acaba,
oxalá
seja bem cedo!
A
esperança que falava
tem
lábios brancos de medo.
O
horizonte corta a vida
isento
de tudo, isento...
Não
há lágrima nem grito:
apenas
consentimento.
Cecília Meireles

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